O arguido Daniel Palmer foi considerado culpado de agredir até à morte João Esteves, apenas quatro dias após o português ter chegado a Londres, em busca de emprego, e condenado a prisão perpétua.

A sentença foi determinada esta segunda-feira pelo juiz Jonathan Scott-Gall, que estabeleceu a prisão perpétua e um mínimo de 15 anos de prisão efetiva, após o júri ter dado um veredicto de culpado por homicídio, noticiou o jornal Crawley News, na sua página eletrónica.

O júri tivera a alternativa de deliberar um veredicto de homicídio involuntário pois, durante o julgamento, o arguido de 24 anos confessou ter esmurrado várias vezes e estrangulado o português, mas em defesa própria.

Segundo o relato do britânico, Esteves abordou-o de madrugada, numa rua de Crawley, localidade a cerca de 50 quilómetros a sul de Londres, primeiro para pedir tabaco, tendo depois exigido dinheiro e o telemóvel.

«Eu estava assustado. Para ser sincero, eu sabia bem o que iria acontecer. Como ele disse que tinha uma faca eu tive imediatamente receio pela minha segurança», alegou o arguido, citado pelo jornal Crawley News.

Palmer afirmou que, após o português pedir desculpa, desistiu de chamar uma ambulância e aceitou ajudá-lo, mas um novo ataque levou-o a defender-se com um fio que usou para apertar o pescoço do agressor.

Ao ver que João Esteves não se mexia, o arguido disse ter ficado «assustado» e «desesperado», pedindo a dois transeuntes que chamassem os serviços de emergência antes de abandonar o local.

«Eu sei que a coisa certa a fazer seria chamar uma ambulância e terei de viver com isso para o resto da minha vida», lamentou, ao ser confrontado pela acusação.

O procurador Paul Valder, porém, pôs em causa a veracidade desta narrativa e pediu uma condenação por homicídio, pois foi uma mulher sem-abrigo que encontrou o português inconsciente no chão e pediu ajuda.

Além de ter cadastro criminal e passado tempo na prisão, Daniel Palmer já tinha agredido nessa noite uma outra pessoa, razão pela qual tinha sido expulso de um pub em Crawley.

Pelo contrário, o português, segundo Valder, foi descrito por outras testemunhas como estranho, mas simpático e bem-educado.

O procurador questionou, citado pelo mesmo jornal, como é que «o pobre e desalinhado senhor Esteves assustou tanto Palmer que o fez esmurrá-lo, não uma vez mas duas vezes e deitá-lo ao chão».

Nas alegações finais, lembrou ainda as fotografias e um vídeo, encontrados no telemóvel do arguido, com o português no chão, a tossir e a gemer, e os testemunhos de próximos do britânico.

Amigos e familiares de Palmer descreveram, durante o julgamento, os telefonemas do arguido durante a madrugada, a pedir petróleo para eliminar o ADN que tivesse ficado no corpo da vítima.

Foi ainda mencionado que Palmer voltou ao local do crime várias vezes e falado com agentes da polícia, mas que recusou prestar declarações quando foi detido posteriormente naquele dia.

João Esteves, de 45 anos, natural da região de Lisboa, tinha chegado de avião a Londres, apenas quatro dias antes, a 15 de janeiro, para procurar emprego.

Segundo apurou a polícia do condado de Sussex, voltou ao aeroporto dois dias depois, onde dormiu enquanto procurava uma forma de pagar um bilhete de regresso.

À segunda noite, agentes da polícia e funcionários de Gatwick encaminharam-no para uma instituição que dá apoio a pessoas sem-abrigo.

A Crawley Open House, porém, terá recusado guarida, por já não ter camas disponíveis, quando João Esteves chegou, pouco depois das 22:00.

Os funcionários da organização de solidariedade deram ao português uma bebida quente, comida e agasalhos e aconselharam-no a permanecer do lado de fora do portão até à hora de reabertura do centro, na manhã seguinte.