O psicólogo forense Mauro Paulino afirmou que há casos de «homicídio por compaixão» em que o idoso mata a mulher porque acredita que está a pôr fim ao seu sofrimento provocado por uma doença.

Um homem de 73 anos matou na sexta-feira, em Matosinhos, a mulher que se encontrava em fase terminal de doença, tentado depois suicidar-se com a mesma arma de fogo que usou contra a vítima, disse à agência Lusa uma fonte da PSP do Porto.

Mauro Paulino explicou que nestes casos é necessário perceber se já existe um historial de violência doméstica: "Se isso acontece estamos a falar de um homicídio conjugal que ocorre numa sequência de violência doméstica".

Mas se não há qualquer indício de violência doméstica (física ou psicológica) o que acontece é que o «idoso se sente impotente para continuar a cuidar da sua esposa» que «está a ficar idosa, dependente e tem uma patologia muito específica que requer alguns cuidados» ou ele próprio está a ficar doente.

«Entramos aqui numa situação que tem sido chamada de homicídio por compaixão», disse o psicólogo, explicando que o idoso, perante a situação de não conseguir ajudar a mulher, «tenta acabar com o seu sofrimento», pondo termo à sua vida.


Mas, apesar das razões do homicídio de compaixão poderem ser compreensivas, "não justificam, nem desculpabilizam o acontecimento", frisou.

«Até porque esse acontecimento tem na ideia algumas desigualdades de género, ou seja o homem acredita que quando morrer a mulher não vai conseguir subsistir sem ele», acrescentou.

Para o psicólogo, é preciso «avaliar de uma forma muito mais coerente e cuidada as histórias e tentar perceber se caem numa categoria de homicídio conjugal ou de homicídio por compaixão».

Questionado pela Lusa sobre se a idade pode tornar a pessoa mais violenta, Mauro Paulino explicou que apenas poderá acontecer se houver um estado senil e a pessoa desenvolva um comportamento mais agressivo.

«Mas de um comportamento agressivo a um comportamento homicida ainda vai muito», comentou, sublinhando que a investigação mostra que a maioria dos homicídios conjugais tem na sua génese histórias de violência doméstica.

«Muitas vezes acontece no limite de exaustão», disse, adiantando que as vítimas também ficam "muito tempo" na relação pela dependência e pelo isolamento social.

«Há uma série de circunstâncias que fazem com que as vítimas fiquem durante muitos anos na relação até conseguirem ter a coragem de assumir a decisão de sair e da separação», disse, advertindo que estes «momentos são de risco acrescido».

Nos casos de violência doméstica é preciso perceber se há agressão do ponto de vista psicológico e não olhar apenas para o que "deixa uma marca física", defendeu.

«Os estudos indicam que quando perguntamos às vítimas o que lhes causa maior sofrimento elas atribuem o maior nível de sofrimento à violência psicológica ao contrário da física e da sexual», adiantou.


Para prevenir estes casos, o psicólogo defendeu uma aposta na formação cívica que «terá ganhos a longo prazo»: «temos que ir para os bancos da escola mostrar às crianças o que é uma relação saudável e o que acontece na violência doméstica e na violência no namoro» e que a «ideia tonta de que 'entre marido e mulher não se mete a colher' já não faz sentido porque isso permitiu que muitas mulheres morressem ao longo dos anos».

«A sociedade e a própria vítima têm uma série de crenças que legitimam e banalizam a manutenção das relações violentas?, lamentou à Lusa.