O ministro-adjunto e do Desenvolvimento Regional, Miguel Poiares Maduro, comunicou à organização do Lisbon & Estoril Film Festival que não irá participar no tributo ao realizador João César Monteiro, disse à agência Lusa fonte oficial.

De acordo com fonte do gabinete de imprensa do ministro, o convite que lhe tinha sido feito para participar, no sábado, na leitura de textos de João César Monteiro (1939-2003), foi declinado, «devido ao movimento de descontentamento que se gerou».

O realizador vai ser alvo de um tributo no Museu Nacional de História Natural, em Lisboa, para o qual foram convidados, além de Poiares Maduro, a atriz Alexandra Lencastre, a psicóloga Joana Amaral Dias, a deputada Isabel Moreira, o barítono Jorge Vaz de Carvalho e o arquiteto Manuel Graça Dias.

O evento originou uma carta aberta de protesto assinada, entre outros, por João Pedro Monteiro Gil, filho do cineasta, por Margarida Gil, realizadora que viveu 25 anos com César Monteiro, pelo realizador Pedro Costa, pelos poetas Herberto Helder e Manuel Gusmão, pela escritora Maria Velho da Costa, o músico José Mário Branco, o escultor Rui Chafes, o curador João Fernandes, além do cineasta Manoel de Oliveira.

Na carta, a que a agência Lusa teve acesso, lê-se que a sessão de leitura de textos de César Monteiro, revelando uma faceta menos conhecida do realizador, é feita sem ter sido pedida autorização ao filho, «que é quem detém os direitos autorais do poeta-cineasta».

Contactado pela agência Lusa, o gabinete do ministro indicou: «Miguel Poiares Maduro tinha sido convidado a título pessoal, e não como ministro, pelo Paulo Branco [responsável pela organização do festival], tal como outras pessoas, para fazer as leituras».

«Logo de início deixou bem claro que, se houvesse algum constrangimento provocado pela sua presença, ele optaria por declinar o convite, o que fez de imediato, após ter tido conhecimento do movimento de contestação», acrescentou.

Na carta aberta, os signatários manifestam sobretudo um «vincado repúdio» perante «uma operação política a todos os títulos repugnante», por incluir o ministro Poiares Maduro a ler «uma carta do César [Monteiro] a um organismo estatal e sabe-se lá mais o quê de igual jaez e esperta solicitude».

Em causa, alegam, está o «intuito subjacente de branquear, neutralizar, festivalar o furor interventivo, manifestamente anti-sistema, do cineasta, assim posto à mercê de tais canibais homenageantes».

Este tributo assinala os dez anos da morte de João César Monteiro, expondo uma faceta melhor conhecida do autor, a de escritor, embora alguns dos seus textos tenham sido publicados, nomeadamente «Corpo submerso» (1959), «Morituri te salutant» (1974) e «Uma semana noutra cidade - diário parisiense» (1999).

Margarida Gil revelou à agência Lusa que toda a obra escrita de João César Monteiro será publicada «a seu tempo», pela Letra Livre, estando atualmente a ser organizada por várias pessoas, entre as quais o editor Vítor Silva Tavares.