«Não me deixe morrer, eu quero viver», gritou José Carlos Saldanha, doente que aguarda tratamento contra a hepatite C, ao dirigir-se ao ministro da Saúde, durante uma audição que decorre, esta quarta-feira, na Comissão Parlamentar da Saúde.

José Carlos Saldanha, acompanhado pelos filhos de duas doentes com hepatite C, uma das quais falecida recentemente, assistiu a várias horas de debate sobre o estado das urgências hospitalares, mas também sobre o acesso aos tratamentos contra a hepatite C.

«Senhor ministro, tenho a dizer que a mãe do David morreu. Não me deixe morrer. Eu quero viver. Eu ofereci-lhe metade do dinheiro para o senhor me dar o tratamento, escrevi-lhe uma carta e o senhor não respondeu. Não há direito. Acabem com isto, por favor, de uma vez por todas», afirmou o doente dentro da sala.


Segundo afirmou, este doente com hepatite C terá oferecido a Paulo Macedo metade do custo do tratamento, não tendo recebido qualquer resposta da parte do Ministério da Saúde.

José Carlos Saldanha pediu depois desculpa aos deputados pela sua intervenção e avisou Paulo Macedo.

«Peço imensa desculpa, por respeito à bancada, a todos os senhores, mas a si, eu vou encontrá-lo! Desculpem-me. Perdão, perdão», avisou.


Em declarações aos jornalistas, já fora da sala, José Carlos Saldanha afirmou que «só neste país é que se vê esta pouca vergonha» e que o ministro é um «assassino».

A intervenção causou celeuma, com o deputado do PSD a solicitar que os restantes dois elementos e filhos de doentes deixassem a sala onde decorre a Comissão Parlamentar da Saúde saíssem, proposta que não foi acatada.

José Carlos Saldanha foi entrevistado, na passada quinta-feira, no Jornal das 8, da TVI. Durante a entrevista, José Carlos revelou que espera há um ano que o pedido para o seu tratamento seja aceite e falou de uma «guerra» que tem travado para poder aceder a este tratamento.

«Não sou um doente imaginário, sou real. A guerra tem sido grande e o meu tempo de antena é muito curto. [...] Existe uma cura e eu não percebo do que estão à espera.»

José Carlos esteve, já esta quarta-feira, no jornal das 14:00 da TVI24 onde justificou a sua atitude com «as aldrabices do ministro Paulo Macedo».
 

O ministro da Saúde acabou por receber os filhos de duas doentes com hepatite C, tendo garantido que iria averiguar a razão de uma das doentes ter falecido sem receber um medicamento inovador

Após a audição, que durou mais de quatro horas, Paulo Macedo recebeu David Gomes e Ivo Miguel, numa sala longe dos olhares dos jornalistas.

«O ministro disse-nos, olhos nos olhos, que iria averiguar o que aconteceu no caso da minha mãe e porque é que ela não recebeu o medicamento Sofosbuvir [alvo de negociações para redução de preço entre a farmacêutica e o Ministério da Saúde]», afirmou David Gomes aos jornalistas, no final da reunião com Paulo Macedo.

David Gomes quer saber a razão pela qual a mãe, «que pelos vistos era uma doente tão prioritária que acabou por morrer», não recebeu o fármaco.

No encontro, Paulo Macedo terá explicado a David Gomes e Ivo Miguel as negociações que decorrem com o laboratório.

«Temos de pressionar as farmacêuticas», disse David Gomes, que continua com a intenção de processar o Estado e o Ministério da Saúde.

Recusando a ideia de que no encontro o ministro da Saúde terá feito uma lavagem cerebral, Ivo Miguel corroborou a ideia de que não se deve pressionar apenas o Ministério da Saúde, mas também o laboratório.

Paulo Macedo adiantou aos jornalistas que, no decorrer da reunião, David Gomes lhe terá transmitido que o hospital onde a mãe foi seguida já terá aberto um inquérito para averiguar o que se passou.

O ministro tinha afirmado, ainda no decorrer da audição, que se comprometia «pessoalmente» a verificar o circuito das autorizações de utilização excecional de medicamentos, como o Sofosbuvir, para a hepatite C, de modo a averiguar como pode ser melhorado.

David Gomes revelou ainda que elaborou uma carta para a presidente da Assembleia da República contra a forma como o deputado social democrata Miguel Santos se dirigiu a si e a Ivo Miguel, sugerindo que abandonassem a sala da comissão, após um doente se ter exaltado e gritado com o ministro da Saúde.