A Sociedade Portuguesa de Gastroenterologia (SPG) defende que todas as pessoas realizem “pelo menos uma vez na vida” o teste à hepatite C, doença que mata todos os anos mil doentes em Portugal.

A propósito do Dia Mundial das hepatites Víricas, que se assinala nesta quinta-feira, o presidente da SPG lembrou que esta organização já há alguns anos defende a realização de um rastreio à infeção pelo vírus da hepatite C.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) veio também agora defender a realização de um rastreio, tal como nós temos vindo a fazer”, disse José Cotter.

Ao nível mundial, lembrou o especialista, existem 400 milhões de pessoas infetadas com os vírus da hepatite B e C, das quais entre 130 a 150 milhões com hepatite C.

São números muito assustadores e têm de ter uma grande preocupação da comunidade médica, porque estas infeções deterioram a qualidade de vida das pessoas, mas estas infeções crónicas também levam a estadios terminais de cirrose e de cancro do fígado”, adiantou.

Em 30 a 40% dos casos com infeção por hepatite C mal tratada, a situação evolui para cirrose e, destes, cerca de 10 a 40% terá cancro do fígado.

Em Portugal, segundo José Cotter, deverão existir 150 mil pessoas infetadas com o vírus da hepatite C, sendo que a incidência da hepatite B diminuiu desde que a vacina foi integrada no programa nacional de Vacinação.

No caso da hepatite B o tratamento que existe “raramente é curativo”, ao contrário da hepatite C contra a qual os fármacos de última geração conseguem a cura da doença em cerca de 95% dos casos.

De acordo com a Autoridade Nacional do Medicamento (Infarmed), a 1 de julho existiam 7.840 tratamentos iniciados.

Do total de utentes que já finalizaram o protocolo de tratamento, 3.005 encontram-se curados e há 122 doentes dados como não curados.

Há expetativas enormes com este tratamento. Já se fala da erradicação da doença, mas é fundamental uma estratégia”, defendeu José Cotter.

Essa estratégia passa pela prevenção, a começar no ambiente escolar, pela realização de pelo menos uma análise por ano à infeção pelo vírus da hepatite C e à prevenção de comportamentos de risco.

José Cotter alertou para áreas onde o tratamento não está a chegar devidamente, como as cadeias e os consumidores de drogas injetáveis.

“É preciso entrar no tratamento destes doentes, nas prisões. Mas é preciso uma estratégia”, acrescentou.

A jusante do tratamento, o presidente da SPG considera que se deve começar a pensar em unidades paliativas e o acompanhamento da resposta do programa de transplantes.

Santa Maria com taxa de cura de 96,5%

O Hospital de Santa Maria, em Lisboa, tem uma taxa de sucesso nos tratamentos da hepatite C de 96,5%, superior à média nacional, sendo a unidade que mais doentes segue em Portugal.

Segundo dados revelados hoje à agência Lusa, pelo presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar de Lisboa Norte (CHLN), Carlos Martins, foram ou estão a ser submetidos a tratamento cerca de 950 doentes com hepatite C e 804 deles já se encontram curados.

O Hospital de Santa Maria, que integra o CHLN, já tratava a esmagadora maioria dos doentes com hepatite C com tratamentos inovadores em Portugal, mesmo antes do acordo alcançado em fevereiro de 2015, entre o Estado e a indústria farmacêutica.

Aliás, até esse acordo ser assinado, o CHLN tinha em tratamento, com fármacos inovadores, 84 doentes, 50 deles no âmbito de ensaios clínicos, ao abrigo de protocolos com a indústria farmacêutica.

O CHLN tem estado sempre na linha da frente em termos do tratamento com inovação da hepatite C. Continuamos a ser a unidade hospitalar que mais doentes trata e que tem tido o maior sucesso em termos de resolução do problema da hepatite C”, afirmou Carlos Martins.

O presidente do Centro Hospital, que integra o maior hospital do país, lembrou ainda que o tratamento da hepatite C é também um contributo para a economia nacional e para a sociedade: “Cada doente que tratamos com sucesso é um cidadão que devolvemos à vida ativa do país, alguns deles empresários que retomaram a sua atividade profissional. Além do sucesso e da felicidade pessoal, é também um contributo à sociedade e à economia.”

Hospitais de Coimbra curaram 307 doentes no último ano e meio

O Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC) já curou 307 doentes de Hepatite C no último ano e meio no âmbito do programa de erradicação da doença, anunciou hoje aquela unidade.

Dos 824 doentes submetidos a apreciação para tratamento, o CHUC promoveu o início de tratamento de 618 pessoas "e completou o tratamento (incluindo monitorização dos resultados) de 343 doentes, estando curados 307 doentes".

A oportunidade histórica de erradicar uma doença potencialmente mortal faz-nos sentir realizados como médicos e coloca Portugal na linha da frente das melhores intervenções mundiais em saúde, com assinalável contributo do CHUC. E isso é um motivo de orgulho para todos", disse o presidente do conselho de administração do CHUC, José Martins Nunes.

Citado num comunicado da unidade hospitalar, a propósito do Dia Mundial do Combate à Hepatite, o responsável salientou que "o sucesso desta luta passa pela grande atenção a campanhas de prevenção da doença, diminuindo os comportamentos de risco e assegurando as melhores medidas de controlo da infeção".

"Esta prestação do CHUC está ancorada no esforço e no empenho dos seus profissionais, na sua capacidade de mobilização dos doentes para a prossecução do tratamento e traduz um desempenho do hospital ao melhor nível dos grandes centros hospitalares", refere a mesma nota.

A unidade hospitalar considera que a sua "reconhecida atratividade tem permitido que este elevado número de doentes recorram aos serviços [do CHUC] para diagnóstico e tratamento, sendo claro que os resultados estão em claro alinhamento com as melhores práticas internacionais".

Salienta ainda que, além da qualidade de vida dos doentes, a cura da hepatite "conduz a prazo a um benefício económico-financeiro para a sociedade, com uma redução de despesa pública de cerca de 270 milhões de euros (com tratamentos e seguimentos de doentes com cirrose hepática, carcinoma hepato-celular ou transplantação hepática evitados pelo tratamento)".

O CHUC assinala hoje o Dia Mundial do Combate à Hepatite com várias ações de divulgação de medidas de prevenção na comunidade, na linha dos "Campos de Férias" que anualmente realiza para crianças e adolescentes através da consulta de doenças infecciosas do departamento pediátrico.