Pedrógão Grande, domingo passado, incêndios mortais, devastadores, e mesmo que com circunstâncias diferentes, alimentados por um problema comum na avaliação de Henrique Pereira dos Santos, arquiteto paisagista, nascido em Angola, em 1960, autor do livro "Portugal: Paisagem Rural" e colunista em meios de comunicação: os combustíveis nas áreas rurais, que aumentam, acumulam-se e irão continuar a crescer, caso não se invertam políticas.

O que arde na frente de fogo são coisas com seis centímetros: folhas, pequenos ramos. Por isso, vê-se que as árvores ardem, mas arde-lhes a copa, os troncos estão lá", refere Henrique Pereira dos Santos, em conversa com a TVI24.

Entre Pedrógão Grande e o passado domingo, o arquiteto faz questão de explicar as diferenças entre as situações. Mesmo que o problema a montante possa ser o mesmo.

Pedrógão foi uma situação excecional, mas dentro do que se poderia prever. Neste fim de semana, foi para lá do que qualquer pessoa poderia pensar", refere, lembrando questões climatéricas únicas, relacionadas com "os ventos laterais do Ophelia", o furacão que passou rente aos Açores, e aí sem mal de monta que se tornasse preocupante.

Neste fim de semana, qualquer que fosse o dispositivo de combate teria colapsado!", sustenta Henrique Pereira do Santos.

Apesar das condições climatéricas ímpares no fim de semana passado, em qualquer grande incêndio, "o que comanda a frente de fogo é uma ignição em movimento. Se não tiver combustível, extingue-se".

Os fogos não se combatem. Levam-se à extinção", salienta Henrique Pereira dos Santos, explicando que, quando as chamas avançam, "há que achar uma oportunidade e essa ocorre onde há menos combustíveis, que se podem retirar, seja por contra-fogo ou com máquinas de rasto".

Para quem ocupou cargos de direção no Instituto da Conservação da Natureza e da Biodiversidade e trabalhou nas áreas protegidas de Montezinho, Peneda-Gerês e Serras de Aire e Candeeiros, são irrelevantes questões relacionadas com as espécies florestais: "os eucaliptos apenas têm projeções que chegam mais longe". Porque, de resto, basta ver os que "são geridos pelas celuloses e não ardem, porque há limpeza de combustíveis".

"Tendência para aumentar" 

Populações rurais envelhecidas, que já não calcorreiam pelas matas, recolhendo lenha para se aquecerem e ervas e tojos para animais, pintam o quadro por demais visto e falado de um certo Portugal abandonado. Acumulam-se assim os tais combustíveis no espaço rural, que alimentam os fogos do nosso descontentamento, aproveitando a ajuda da secura do clima.

Não temos mercado que pague essas atividades, seja por falha do mercado, mesmo que em pequena escala", assume Henrique Pereira dos Santos, lembrando haver atividades de valor social ímpar como a "a pastorícia, os resineiros, os caçadores".

O Estado poderia criar um mercado de consumo. Imaginemos que escolas, hospitais, lares teriam de passar a usar produtos que tivessem a ver, até uns 15%, com a gestão de combustíveis", sugere o arquiteto, exemplificando uma de duas traves mestras de atuação, que são necessariamente complementares.

Isto porque, "se não for suficiente, o Estado paga e faz a gestão desses combustíveis. Não em todo o país, mas em 20% da área, através de associações produtores", através de linhas de trabalho complementares.

Em síntese, para o arquiteto, eliminar o fogo é uma quimera. Geri-lo de "uma forma social, ambiental e economicamente sustentável, através do pagamento de serviços" é a opção para o Estado, intervindo em áreas que "o mercado não remunera". Sem isto, percebe-se, o abandono das terras continua e o problema também.

Há tendência e inevitavelmente vão aumentar estes incêndios. Daqui a dez, doze anos teremos fogos e aí a entrar já dentro das povoações", antevê Henrique Pereira dos Santos.

"Governos fazem o que pessoas pedem"

Meio milhão de hectares, grosso modo, arderam em 2017. Queimadas, incúrias, mãos criminosas e causas menos explicáveis são e poderão continuar a ser o "pão nosso" de todos os anos, quando as matas, florestas e sobretudo áreas rurais voltarem a arder. Se uma alteração de políticas poderia mudar os ventos das tragédias recorrentes, Henrique Pereira dos Santos pouco espera. Por exemplo, do Conselho de Ministros marcado para este sábado.

Nos próximos oito a dez anos, todos os Governos poderão dizer que são bons, porque já não arde, como ardeu", adivinha o arquiteto, até que novas catástrofes reapareçam.

Além dos Governos, sejam os que forem, se forem como têm sido - porque o problema "é muito mais transversal" -, Henrique Pereira dos Santos descobre como que um círculo vicioso entre quem elege e quem manda: "Os Governos fazem isto porque as pessoas pedem isto. Ou seja, mais aviões, mais efetivos, mais bombeiros. E convém lembrar que a maioria dos eleitores vivem em Lisboa, Porto, Braga e Aveiro".