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Este artigo é parte da reportagem «Os Nossos lá fora», clique aqui para voltar ao inicio.
 
Quando o jornalista da RTP, Luís Castro, esteve na Jordânia na altura da invasão norte-americana no Iraque, houve um professor local que o avisou:
 
«Disse-me: vocês ocidentais não sabem o que estão a fazer no Iraque. Ainda não perceberam que a vossa realidade, a vossa democracia, não é exportável para a nossa cultura e para a nossa realidade», recorda.  «Aquilo que aconteceu no Iraque foi o desmembrar de um Estado». 

«Colocaram na rua quase um milhão de lobos à fome com uma arma na mão, sem emprego, sem futuro. Obrigando-os a escolher outras formas de sobrevivência, juntando-se à Al-Qaeda, juntando-se a criminosos ou formando movimentos como o que está a acontecer no Levante. Surgem os extremismos, fundamentados pela religião, pela necessidade, por interesses de outros países... Tudo o que se passou foi uma consequência disso mesmo».

Castro refere-se à execução dos jornalistas freelancers James Foley e Steven Sotloff, decapitados por um membro do Estado Islâmico. É um risco que estes repórteres tomam para conseguir chegar mais perto do acontecimento que todos os outros, porque como freelancers, digamos, jornalistas livres, dependem disso para ganhar o seu dia-a-dia.
 
«São jornalistas que arriscam muito, estão no limite», diz a jornalista da SIC, Maria João Ruela. «É importante haver este tipo de repórteres, mas são eles que correm mais riscos. Se virmos os jornalistas norte-americanos e ingleses que trabalham para as grandes cadeias, vão com muita proteção, nunca vão sem guarda-costas, e estes freelancers que conseguem estar mais dentro do conflito, são os que estão mais expostos.»

A primeira execução, a de James Foley, chocou o mundo pela forma bárbara como foi executada. Pouco depois de ser publicada, a 19 de agosto, a gravação do homicídio já estava em todos os jornais. 

«Nós não sabemos o que esperar deste novo Estado Islâmico. Muitos deles são pessoas que foram do ocidente e para quem a cultura dos media é importante. Levam a guerra para um outro patamar que chega mais à casa das pessoas. Se virmos, em Gaza morreram milhares de pessoas nas últimas semanas. James Foley foi só um, mas se calhar teve mais impacto do que a morte das crianças, das mulheres, dos idosos, durante dias consecutivos. Esses extremistas sabem disso, sabem que esta maneira de mostrar as coisas é brutal».

Mas um vídeo não foi suficiente. Uma vez que os EUA não atenderam aos pedidos do Estado Islâmico, a 2 de setembro, outro jornalista, Steven Sotloff, raptado em 2013, também na Síria, é igualmente executado pelo mesmo carrasco. Os rebeldes encontraram a forma de conseguir lutar contra os EUA. Sem recurso a armas automáticas ou artilharia pesada, bastou apenas «uma faca, uma câmara e um miúdo inglês», como afirma o jornalista Adelino Gomes.

«Aquilo que o Estado Islâmico não estava a conseguir fazer foi feito através desta decapitação. Isto é qualquer coisa de extraordinário, e ao mesmo tempo arrepiante. Esta é a bomba atómica contra o conhecimento. Hoje há uma outra personagem nesta espécie de terceira guerra mundial em fragmentos, que é o jornalismo e são os jornalistas. Protagonistas forçados, na medida em que alguém os transforma em protagonistas, ao torná-los vítimas», refere.

«Ir à Síria nestes últimos dois anos, aliás, quando o jornalismo sente que tem de ir à Síria, é quase um exagero. Mais do que a guerra do Iraque, onde eu estive, e antes no Golfo, eu não sei se tinha coragem de ir lá. Ir à Síria é realmente o teste máximo que o contrato social implícito na atividade jornalística pode exigir a um profissional».

Esta é também a opinião de Miguel Cabral de Melo, jornalista da TVI, que admitiu não ser capaz de ir à Síria neste momento.

«Para o Iraque não sei, eventualmente, pelo menos aí as zonas são mais definidas. Até porque o Estado Islâmico aí já começou a recuar, a linha da frente está mais estabilizada. Para a Síria não. É uma infinidade de grupos rebeldes, é um mosaico de linhas da frente. Não tenho nenhuma vontade especial de ir para o Iraque, mas para a Síria nem pensar».
 
Exatamente por esse motivo, Miguel admira a coragem destes jornalistas como Foley e Sotloff, que vão sem uma rede de apoio, para mostrar ao mundo o que se passa neste tipo de zonas. E acredita que mesmo com duas decapitações (se contabilizarmos jornalistas apenas), este não é ponto final desta história.

«São freelancers, pessoas que não têm uma estrutura fixa atrás deles, não têm rede de apoio nenhuma. Estas coisas vão continuar a acontecer, os jornalistas vão continuar a ser raptados e mortos. Não quer dizer que seja desta forma, mas para os extremistas os repórteres são uma arma importantíssima, não para intimidar os Governos, mas para tentar ganhar a opinião pública de países como os Estados Unidos, o Reino Unido, etc.».

A própria construção dos vídeos de James Foley e Steven Sotloff mostra isso, diz.

«O carrasco fala inglês com um sotaque do sul de Inglaterra para que não haja um produto dobrado ou traduzido a chegar aos ecrãs dos Estados Unidos e britânicos. Não é uma coisa falada em árabe, não, o espetador houve um tipo falar em inglês e isso terá um efeito maior para assustar a opinião pública.»

Numa zona de conflito, a vida de um jornalista é algo valioso. Luís Castro lembra que quando esteve no Iraque, um repórter valia 250 mil dólares em caso de rapto. «Os jornalistas eram raptados e entregues aos grupos da resistência porque servem propósitos políticos, ou como meio de financiamento. James Foley serviu de arma política.»
 
Sobre a continuidade do Estado Islâmico e a forma de lidar com esta nova ameaça, Luís Castro diz que teremos de esperar para ver o que acontece de seguida.
 
«Há uma coisa que ninguém disse [sobre James Foley]: devíamos olhar para ele, para a forma como morreu, de cara erguida. Morreu como um leão. Morreu como um herói. Sabia que ia morrer, e ninguém falou como enfrentou o seu carrasco: algemado e de cabeça levantada. É uma imagem de que não me vou esquecer. Eu já fui interrogado de arma apontada à cabeça e só quem passa por elas é que percebe como nos tremem os joelhos, como nos derrubam tão facilmente».