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Este artigo é parte da reportagem «Os Nossos lá fora», clique aqui para voltar ao inicio.
 
Enquanto caminhamos pelos corredores da SIC em busca de uma sala para conversar, somos acompanhados por uma marca que Maria João Ruela trouxe do Iraque: baleada numa perna, ficou a coxear para o resto da vida. Mas, ainda assim, não fosse a ajuda de uns estranhos e talvez a história tivesse um final pior.

Ruela admite que quando foi para o Iraque em 2003 fê-lo com o pensamento que nada haveria de acontecer. Foi enviada para acompanhar um grupo de GNR portugueses que partiram para auxiliar na maior guerra da última década, mas nunca chegou a ver a linha da frente. Cerca de 10 minutos após de ter entrado em território iraquiano, Ruela foi vítima de um assalto violento que não só a obrigou a voltar para Portugal, como a deixou com uma «cicatriz» para toda a vida.

«Obviamente que me arrependo, porque tenho uma limitação grave, e até porque não experimentei nada, nem fiz quase reportagem nenhuma, mas a vida é feita de riscos. Quem não arrisca não petisca, umas vezes petiscamos outras vezes não».

Experimentar a reportagem de guerra era uma ambição profissional: quando surgiu a oportunidade para acompanhar a GNR, a jornalista não hesitou e aceitou partir para o terreno. O que lhe aconteceu à chegada não foi fruto da inexperiência em cobrir conflitos (até porque o seu câmara, Rui do Ó, era das pessoas da SIC mais experientes nesse campo) nem foi um resultado da guerra em si. Apenas uma daquelas situações de estar no sítio errado à hora errada.

Quando o avião que transportava as equipas da SIC, da TVI, RTP e TSF aterrou no Koweit todos julgavam que seriam transportados numa coluna militar inglesa, junto com os GNR.

«Deram-nos o visto para o Iraque, mas depois percebemos que não podíamos ir porque os ingleses, que tinham a "tutela" do sul do Iraque na altura, não deixavam que fossem civis na coluna militar. Imaginem o que é chegar ao Koweit, todos os planos saírem furados e dizerem-nos "vão ter que se desenrascar"...»

Milhares de quilómetros e meios gastos para nada. Não podia ser. Os jornalistas falaram e todas as equipas concordaram em avançar apesar das circunstâncias. Sozinhos, alugaram três jipes no Koweit, e lançaram-se para território iraquiano. A história de Ruela começa aqui. Seguia num jipe com Rui do Ó e Carlos Raleiras (da TSF).

«Passamos a fronteira e talvez 10 minutos depois percebemos que estávamos a ser perseguidos por dois carros de alta cilindrada. Os outros jipes, onde seguiam os colegas da TVI e RTP, conseguiram acelerar e fugir e nós fomos ficando para trás. Decidimos fazer inversão de marcha e voltar para a fronteira, onde aí poderíamos encontrar quem nos defendesse».

Como se de uma perseguição de um filme de ação se tratasse, quando os iraquianos se apercebem da tentativa de fuga, começam a disparar contra o jipe.

«Estavam a tentar apontar aos pneus, mas as balas começaram a entrar para dentro do carro, houve uma que furou a parte de baixo do jipe e acertou-me na perna. Quando percebi que tinha sido atingida, pedi ao Carlos Raleiras que parasse o carro e saímos».

Os iraquianos levaram o carro, o dinheiro, todo o equipamento profissional e sequestraram o jornalista Carlos Raleiras. Ruela e Rui do Ó acabam abandonados naquele deserto.

«Nessa altura percebi que já estava a perder muito sangue, já não sentia a perna, mas acabámos por ser salvos por outro grupo de iraquianos que nos levou para uma espécie de centro de saúde rudimentar».

Quando estes iraquianos já planeavam levá-la para um hospital de uma cidade maior, Rui do Ó conseguiu que fosse transportada para um hospital militar inglês onde recebeu tratamento mais adequado. Lá foi operada, passou um dia, e daí foi depois transferida para o Koweit e mais tarde enviada para Portugal.  «Depois estive no hospital um mês».

Não foi um ataque de guerra, não foi porque os jornalistas eram ocidentais, toda a situação não passou de assalto violento que correu mal. A diferença, e como conta Ruela, é que enquanto «em Lisboa um assalto é feito com uma ponta e mola, no Iraque faz-se com uma kalashnikov». Foi uma daquelas situações que os repórteres de guerra não esperam, mas que faz parte dos riscos de ir para uma zona de conflito.

Ruela nunca mais partiu para um cenário destes, já quis ir, mas por causa da limitação física nunca se revelou seguro que a cobertura lhe fosse entregue. Não tem arrependimentos: diz já ter feito «inúmeras reportagens» que lhe trouxeram tanto ou mais orgulho que o trabalho que teria feito no Iraque.

À semelhança de Ruela, também Adelino Gomes nunca pensou quando partiu para Sarajevo em 1994* que viria a ser salvo por um estranho. Debaixo da mira de um sniper, Adelino foi salvo por um habitante local, e ainda passou uma vergonha na altura de agradecer ao seu «herói».

Na altura, aquela cidade gritava insegurança, e os hotéis dos jornalistas não eram exceção. Apesar da ONU deixar os jornalistas bem perto dos locais onde iam ficar, Adelino tinha de correr 150 metros a descoberto para entrar no hotel. Era para esse sítio que os snipers apontavam as suas armas, porque estes profissionais não eram bem-vindos ali. Numa manhã da semana que ali passou, aqueles 150 metros iriam revelar-se bem mais perigoso do que tinha imaginado.

Tudo começou antes de Gomes chegar a Sarajevo. Os jornalistas autorizados a entrar na cidade eram transportados num avião da ONU, que passava por Zagreb (na Croácia), e aí Adelino encontrou um major português que o ajudou. 

«Era altura de Natal e perguntei se ele queria que levasse alguma coisa à mulher em Serajevo. Entregou-me um saco de plástico, e sei o que tinha porque a ONU nos obrigava a mostrar tudo: mandava coisas que a nós não nos passam pela cabeça, sabonete, pasta de dentes, fósforos».

Certa manhã, Adelino encontrou-se com o sogro do major, e convidou-o a subir ao hotel para ir buscar a «encomenda». No entanto, no regresso, naqueles 150 metros de risco, Adelino começou a ouvir tiros.

«Decidimos correr os dois. Estamos no período de inverno, na mão levava papéis e um gravador, e a certa altura escorrego no gelo, por nervosismo talvez. O natural era que aquele senhor tivesse continuado a fugir porque íamos ser atingidos, e eu compreendia que ele continuasse, mas ele voltou atrás e puxou-me enquanto eu agarrava as coisas, e corremos os dois agachados até ao hotel. Fiquei muito tocado».

Já no hotel, Adelino procurou uma forma de agradecer o ato altruísta que lhe tinha salvado a vida.

«Fui buscar o saco que tinha para lhe entregar. Depois decidi oferecer-lhe também uma coisa que tinha levado para partilhar com quem estivesse no Ano Novo. Uma garrafa de Vinho do Porto. Ele ficou a olhar para mim, não queria bem acreditar... Mas foi muito delicado, e agradeceu. Lembrei-me entretanto que ele era muçulmano, e que a oferta que lhe fiz não era muito simpática»

O pai da mulher levou o saco e Adelino viveu para contar a história.

*Durante a Guerra da Bósnia (1992-1995), Sarajevo, capital da Bósnia e Herzegovina, esteve cercada durante 1425 dias, entre os anos de 1992 a 1996. Os jornalistas só conseguiam entrar na cidade viajando nos comboios de ajuda humanitária da ONU.

Parte 5: Na linha da frente também há golpes de sorte