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Este artigo é parte da reportagem «Os Nossos lá fora», clique aqui para voltar ao inicio.
 
Rui Araújo, jornalista da TVI, desde 2008, foi um dos primeiros 21 repórteres mundiais a chegar ao Ruanda, em 1994. Lá, onde se deu um dos maiores genocídios da história recente, o agora repórter da TVI encontrou «o pior sítio» onde esteve. Rui Araújo saiu de Portugal em busca de histórias, mas voltou do país africano como nunca esperou: com pesadelos que só há bem pouco tempo conseguiu ultrapassar.

«Nos primeiros dias do genocídio, em que não estava lá a CNN, a BBC, o New York Times, nem o Le Monde, éramos 21, loucos, perdidos naquele inferno. Foi talvez o pior sítio onde estive na puta da vida», diz com a voz inevitavelmente pesada.

No Ruanda, viu morte. Morte como não se vê em todas as guerras. Viu crianças, homens e mulheres a serem mortos apenas porque tinham a «etnia errada no bilhete de identidade». Ali, fez o que nunca pensou que faria quando partiu como enviado. Ali, furtou um jipe, deixou morrer um adolescente - numa das decisões mais difíceis que confessou ter tomado - e a certa altura pediu uma arma para matar: já não aguentava ver tanta miséria e desgraça.

«Matava-se muita gente ali, atiravam-se granadas defensivas para igrejas cheias de mulheres e crianças, cortavam miúdos à catanada e atiravam-nos ao ar (…). A certa altura pedi uma arma para matar. Se visse [alguém] matar um puto à catanada, dava-lhe um tiro nos cornos, não tenho dúvida nenhuma», confessa.

Rui Araújo explica que não são só os soldados que ficam afetados pelos dramas de um conflito. «Ninguém passa impune pelas guerras». Todos trazem fantasmas, porque «antes de serem jornalistas, são humanos», aponta, confessando ao mesmo tempo que há 20 anos que vive com o tormento de um jovem que «deixou morrer» para evitar a morte de outras quinze pessoas.

Araújo volta a pegar no maço de tabaco, uma espécie de «ritual» necessário antes de começar a contar-nos o que aconteceu: estávamos em 1994.

Quando chegou ao Ruanda, o aeroporto de Kigali estava cercado pelas forças da Frente Patriótica do Ruanda (FPR). Todos os 21 jornalistas que ali desembarcaram procuravam uma saída. Fora do cerco estavam as provas do genocídio de que tanto se falava. A coluna militar que agora saía só tinha lugar para mais um. Rui Araújo que «nunca teve sorte na lotaria» ficou para trás.

«Na manhã seguinte, surpreendentemente foi criada uma coluna militar que não estava prevista, pedi para me levarem, estava lá para isso, mas disseram-me que não havia transporte. [Então] roubei um carro no aeroporto, havia muitos. Aliás, furtei, porque roubar é com uma arma. Furtei um carro abandonado, um Mitsubishi novo», assume.

Sem muito tempo para pensar, é na companhia de camaradas belgas que parte e integra a coluna e a viagem que o iria marcar até hoje.

O percurso acaba por revelar-se traiçoeiro. Depois de caírem em duas emboscadas, decidem voltar para o aeroporto, e é a meio do caminho de terra batida que Rui Araújo avista a decisão de uma vida. A vida de um jovem adolescente, ensanguentado, que pedia ajuda na berma da estrada.

«Eu ia mais ou menos a meio da coluna, a guiar o jipe que tinha furtado, e vi um rapaz encostado a uma parede, com uma t-shirt branca, cheio de sangue, ferido, e que me pediu ajuda. Eu ainda parei o jipe, mas não lhe dei boleia, porque para salvar um podiam morrer 10, 15 que iam atrás de mim. Naquele momento não há tempo para pensar. As pessoas revelam o que são nas guerras: os cobardes são cobardes, os corajosos são corajosos, e eu deixei morrer um puto. E isso marcou-me», conta.

É já com o abrir e fechar do isqueiro que o jornalista fixa o olhar e revive o que aconteceu depois de ter «condenado» aquele «puto à morte». «Por causa do Ruanda, tive pesadelos durante 14 anos, porque deixei morrer um puto que tinha a idade do meu filho, porque vi coisas inimagináveis, uma violência excessiva, tanto assim que deixei de ser jornalista e passei a ser homem. Pareceu-me mais importante, naquele momento, naquele lugar, ser homem, daí ter pedido uma arma para matar. Porque eu não creio que um jornalista se limite ao mero papel de observador, quando aquilo que está em causa são coisas essenciais como a vida, e a dignidade».

Ainda assim, o repórter da TVI admite «que é importante haver jornalistas a cobrir as guerras», mas confessa que para «o confronto com a morte, o sofrimento, com as injustiças… É preciso ser masoquista para procurar isto».

É no rescaldo do pesadelo e depois de ter visto em primeira mão o Ruanda, Timor, Angola, Bósnia ou, a mais recente, Líbia, que Rui Araújo afirma: «Não quero mais guerras. Já vi o suficiente, já vi de mais».

Mas é quando apaga o terceiro cigarro que, ainda assim, reconhece: «Agora era capaz de ir para a Síria».