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Este artigo é parte da reportagem «Os Nossos lá fora», clique  aqui  para voltar ao  inicio .

Miguel Cabral de Melo, jornalista da TVI, não se considera um repórter de guerra. Por respeito a quem realmente presenciou um conflito em curso, o jornalista diz que apenas esteve em cenários parecidos: zonas em pós-guerra, ou um tumulto civil como foi o caso do Egito em 2011. No entanto, isso não significa que não tenha experimentado os riscos de ir para fora. Miguel estava no Cairo, quando os populares apoiantes das forças governamentais planearam atacar o hotel dos jornalistas: o hotel de Miguel Cabral de Melo.

«O maior risco, mais palpável que corremos, não foi um risco só nosso, foi dos jornalistas todos que estavam no Cairo. Estávamos no hotel «Sheraton», que é muito alto e tem vista para a praça Tharir, que estava cercada pelos elementos favoráveis ao regime. E esses elementos começaram a planear atacar esse hotel, que era onde estavam a maioria dos jornalistas ocidentais».

No Cairo, Miguel até vivia uma situação de relativa segurança, porque os insurgentes contra o regime de Hosni Mubarak até gostavam que os jornalistas lá estivessem, para evitar maiores abusos governamentais e conseguir apoio ocidental para a sua causa. O mesmo sentimento não partilhavam essas últimas forças, que não queriam os jornalistas ali.

«A gerência começou a receber avisos de que estavam a planear um ataque ao hotel, [e para garantir alguma segurança] começaram a confiscar as câmaras dos repórteres de imagem. Nessa altura, em comunicação com uma equipa da RTP chegámos à conclusão que o melhor era sairmos dali. Eles falaram com a embaixada portuguesa, e eles foram buscar-nos à noite, para outro hotel, que não era tão bom para efetuar a cobertura, mas era mais seguro».

Preferiram jogar pelo seguro, e quem sabe não foi o melhor: nos dois últimos dias que passaram no Sheraton viram outros jornalistas a quem os problemas não deram folga.

«Durante os dois dias que estivemos ali, de facto houve muitos jornalistas agredidos na rua, nós tivemos sorte, não tivemos encontros desses. Mas havia muito jornalista que voltava com um olho negro, com a cara a sangrar, ou que tinha levado com um taco não sei onde, com umas ligaduras, etc., nós tivemos sorte basicamente. Porque fisicamente não nos fizeram mal nenhum».

Essa sorte não teve Luís Castro, jornalista da RTP, quando esteve no Iraque em 2003. Apanhado com o seu repórter de imagem e dois jornalistas israelitas por elementos da Policia Militar dos Estados Unidos, viveu três dos piores dias de que tem memória. Agredido e humilhado, por forças de um país que estaria no Iraque para proceder à libertação de um povo que sofria na pele aquilo que acabaria por passar, esteve de arma apontada e, tal como os seus colegas, foi deixado ao frio, sem comer, e sem poder contactar a sua família. Acabaria por ser libertado com um pedido de desculpas e com apenas alguns hematomas, mas proibido de entrar no Iraque novamente. Nesse dia achou que a sua carreira como jornalista de conflitos tinha chegado ao fim.

«Quando estive preso no deserto iraquiano, sem comida, sem bebida, a ser agredido, sem capacidade de poder avisar a minha família e os meus colegas de que estava vivo, fui humilhado na minha dignidade como ser humano. Questionei-me se valia a pena, e achei naquela altura que era o ponto final da minha carreira. Mas como sou escorpião, o pior que me podem dizer é "não podes", e quando fui libertado e me apanhei em Koweit, voltei a furar a fronteira do Iraque, e voltei a cruzar o território iraquiano».

Voltou a furar o deserto e a entrar. Não deixou de ser repórter de guerra.