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Este artigo é parte da reportagem «Os Nossos lá fora», clique aqui para voltar ao inicio.

Ser jornalista de guerra é viver com o dever de descrever conflitos: lá fora os nossos têm de ser repórteres e editores, têm de recolher informação e escolher o que é importante mostrar. Mesmo que exista a possibilidade de se vir a chocar. Em certas situações, é verdade, a vontade de contar sobrepõe-se a tudo, e foi num desses encontros que Adelino Gomes se sentiu «um abutre».

Habituado a cobrir cenários de guerra, desde Timor ao Iraque, o ex-jornalista da RTP, Renascença, Rádio Clube Português e Público, atualmente já reformado, viu várias vezes a guerra com os próprios olhos. Viu muito, portanto. No entanto, há situações e situações, e aquela que viveu em Timor destaca-se entre todas: o dia em que sentiu o dever de informar sobrepor-se ao auxílio de um ferido.

Corria o ano de 2006 e Adelino soube de um tiroteio na estrada para o aeroporto de Díli, onde supostamente havia mortos e feridos. Era a reportagem do dia. Apressou-se a correr para o local, mas já só encontrou um homem: um só timorense, ferido no chão, à beira da morte. À sua volta estavam cerca de 10 jornalistas que tomavam notas, filmavam, faziam diretos... Dois deles pararam o trabalho para ajudar o homem deitado no chão. Adelino não foi um deles, e sentiu-se mal.
 
«Havia um homem a agonizar, não me posso esquecer disso, porque era apenas um homem e éramos talvez 10 jornalistas, todos a olhar para ele como se estivesse a agonizar para nós. Uma coisa terrível, o homem a alimentar a nossa reportagem. Senti-me mal. Senti-me um "voyeur", um abutre que se estava a alimentar da agonia deste homem e afastei-me. [Só depois] tivemos consciência que atravessámos a linha».

O mesmo dilema, entre escolher a informação a custo de uma vida, teve Luís castro, jornalista da RTP: já esteve em 24 conflitos e pelo menos em três sentiu o dilema invadir-lhe o cérebro por segundos. Tudo se resume a momentos de decisões rápidas, que vão ditar o que acontece a seguir. Castro já se viu incapaz de ajudar a salvar uma vida, também já conseguiu salvar pessoas, mas também já teve de decidir no momento se a informação é mais importante que a vida. 

Em Angola, em 1999, enquanto acompanhava as tropas do MPLA, teve oportunidade de entrevistar um inimigo (da UNITA) e foi-lhe sugerido que gravasse a sua decapitação, uma imagem que correria o mundo.  Luís não só se recusou como ajudou a que o prisioneiro não fosse morto, pelo menos naquele momento. Noutra ocasião, já no Iraque foi convidado a acompanhar o planeamento e execução de um atentado contra soldados norte-americanos, outra vez teve de decidir no momento e recusou. 
 
«Eles iam preparar o carro-bomba e eu ia acompanhá-los no atentado em que os americanos eram o alvo. Desta vez já tive dúvidas se devia ter feito a reportagem. Na altura a minha consciência disse que não o devia fazer. Mais tarde uma revista norte-americana fez essa reportagem. Mas [pelo menos] durmo tranquilo», conta.
 
O mesmo tipo de escolha não teve no Zaire, em 1998, quando viu um homem ser apedrejado até à morte: se tentasse impedir, acontecer-lhe-ia o mesmo. Ou quando encontrou crianças e jovens toxicodependentes acorrentadas a árvores na Guiné. São eventos que não lhe saem da memória e, tal como Adelino, ditaram que Luís Castro nunca mais fosse o mesmo. «Voltava sempre diferente de cada guerra para onde ia». 

«Uma coisa é certa, voltamos diferentes, voltamos destabilizados. Eu tinha a minha própria terapia, isolava-me durante 10 dias, e só depois me sentia em condições para voltar ao trabalho. Porque temos de nos devolver à sanidade mental. Infelizmente em Portugal ninguém parou para pensar que não são só os soldados que voltam com stress pós traumático. Os jornalistas também».

Rui Araújo, jornalista da TVI, vai mais longe e diz que mais do que ignorar as condições em que se regressa de uma guerra, existe hoje uma banalização da violência e do sofrimento que também é culpa do jornalismo: é o preço de optar pelo «show-off» e pelo espetáculo.

«Criámos uma indiferença ao sofrimento. As pessoas estão a ver o telejornal e veem gente a morrer nas guerras, a morrer de fome, a morrer de doenças e continuamos a jantar como se nada fosse. Já faz parte da normalidade, quando não devia fazer, banalizámos a violência, banalizámos o sofrimento».