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Este artigo é parte da reportagem «Os Nossos lá fora», clique aqui para voltar ao inicio .
 
Por muitos bons textos que se escrevam, por mais detalhados que eles sejam, quando toca a contar uma história  de guerra não há melhor meio que a televisão. A guerra tem situações que parecem quase ficcionadas: melhor por isso do que contar, é mostrar. 
 
São as imagens que fazem a história.
 
Bernardo Magalhães, Rui Pereira e Gonçalo Prego são todos repórteres de imagem da TVI e todos estiveram em conflitos. Apaixonados pela imagem, não trocavam a câmara pelo microfone. 

Exatamente porque conseguir uma boa imagem é importante, muitas vezes colocam-se em perigo. Em 2003, em Bagdade, no Iraque, Rui Pereira estava a filmar as tropas norte-americanas de dentro do hotel «Palestina», quando o impensável aconteceu.

«Eles [tropas norte-americanas] tinham os tanques a três quilómetros, talvez, e estávamos a fazer direto de videofone. Não se podia, mas estávamos todos a fazer. A certa altura, vemos o canhão apontar para nós, mas àquela distância, ainda mais pela câmara, não é percetível qual é a direção. Ouvimos um estrondo, o hotel abanou todo, parecia um tremor de terra. Da minha janela depois consigo ver um corpo ensanguentado a ser levado do hotel. Só uma meia hora depois é que soubemos das boas novas, ou más novas».

O ataque vitimou dois jornalistas.

Gonçalo Prego, por outro lado, teve balas a passar-lhe sobre a cabeça em Angola. Só não sabia que era para lhe salvar a vida.

«Quando raptaram os portugueses no Ambriz, em 2004, íamos num jipe, e ficámos a cinco metros de ir pelos ares. Estávamos prestes a pisar uma mina anticarro. Para nos salvar, os angolanos dispararam sobre nós. Não havia tempo para gritar ou fazer gestos. Pararam-nos, e salvaram-nos a vida».

Ainda assim, Prego recorda uma situação pior, a de maior risco que já viveu. Foi no Iraque, numa situação que também não esteve ligada à guerra: foi vítima de um assalto violento.

«Quando estou a voltar de Amã para Bagdade, com o Pedro Belo Moraes, o Adelino Gomes e um jornalista belga, nos últimos 30 quilómetros da viagem somos abalroados por um carro tipo táxi americano. Despistámo-nos contra os railes, do outro carro saem dois iraquianos de caras tapadas, Ak-47 nas mãos, puxam culatra atrás, apontam a arma para nós e começam aos pontapés às portas. O motorista iraquiano começou a chorar e a rezar, e eu dei-lhe dois berros: "open the door, open the door, abre a porta!" Ele obedece, o iraquiano mete a AK-47 dentro do carro, encosta-ma à testa e diz-me "money" (dinheiro)». 

Sentiu medo.
 
«Sinceramente, no tempo desde que ele nos abalroa até dizer «Money», pensei que ia morrer. Foi como nos filmes, fiz o "rewind"” da minha vida, despedi-me mentalmente de quem tinha que me despedir, vi-me quando era bebé, vi os meus pais, a minha mulher, vi o meu filho... Quando ele disse "money", não fiquei descansado, mas pensei "se é isso que queres, isso eu tenho, talvez nos consigamos entender". Depois basicamente foi-nos roubando a todos».
 
O assaltante ainda lhe pediu a câmara de filmar, aí Prego implorou. «Please, please.» O iraquiano olhou para o cúmplice, piscou-lhe o olho e foram embora. «Tivemos sorte: foi no início da guerra e ainda não havia a moda dos raptos». Se fosse mais tarde, a história podia ter sido diferente. «Ainda hoje agradeço por ter saído daquela estrada com vida».

Pensou que não ira sair dali, mas são situações que fazem parte, e com as quais tem de se contar quando se vai para fora. Assim como os dramas. Quando se decide ir para o terreno tem que se ir preparado para ver algumas coisas que podem revoltar o estômago. Bernardo Magalhães lembra-se de um caso destes. 
 
«No hospital Simão Mendes, vi o hospital a ser bombardeado. Lembro-me de ver as pessoas presas nas macas, a quererem sair, a quererem fugir e não conseguiam. E as bombas a cair no hospital. Um cenário horrível. E na altura estás tão concentrado, com a adrenalina, que só queres é filmar, depois quando vais editar as imagens é que cais um pouco na realidade».

Mas Bernardo Magalhães garante que não trouxe quaisquer fantasmas da guerra. A morte não lhe faz grande confusão. 

Gonçalo Prego também sempre aguentou, mas admite que é muito complicado. 

«De facto a guerra é muito injusta. Ver gente a sofrer, sobretudo sabendo que eu estou ali 40 dias e venho embora para a minha vida, mas aquelas pessoas vão continuar confrontadas com aquela realidade. (...)  Acabas por valorizar mais as coisas simples que o nosso país ainda tem para te dar, como a segurança, que há muita gente que não tem neste planeta. Por isso os imigrantes ilegais estão dispostos a vir viver para um bairro de lata: mal ou bem têm tudo o que precisam, enquanto lá não têm nada».

O repórter da TVI viu esses dramas em primeira mão. Em Timor, corria o ano de 1999, na quinta-feira antes do referendo que ditou a independência do território, sem nunca esperar, foi a última cara que um completo estranho viu.

«Havia violência generalizada. Multidões contra multidões. Eu vejo um grupo a atacar um rapaz com catanas e um espeto de assar frangos, e cortaram-no ali às postas. Depois, quando acharam que tinham feito o serviço dispersaram. Eu fui lá ter, e o rapaz tinha levado uma catanada no pescoço, estava quase decapitado, mas estava vivo. Impressionou-me porque desapareceu toda a gente. Apareceu uma ambulância e a única pessoa que foi com ele, fui eu, um repórter de imagem português. Alguém que ele nunca tinha visto na vida. Morreu sozinho, no corredor do hospital, na companhia de um estranho. Morreu à minha frente, com o pescoço meio cortado».

Como se vive com isso? Gonçalo diz que o importante é arranjar distrações.

«Nestas situações, já quando fui assaltado no Iraque, o que eu faço é refugiar-me no trabalho. É trabalhar compulsivamente, para afastar certos pensamentos. É ligar a câmara e trabalhar».