O alargamento do horário de trabalho para as 40 horas semanais lançará no desemprego perto de cinco mil enfermeiros, denunciou esta quarta-feira o sindicato, avançando que algumas administrações já estão a fazer o levantamento dos profissionais dispensáveis.

Greve dos enfermeiros com adesão de 82% no turno da noite

Durante um protesto frente ao Ministério da Saúde, que juntou cerca de 300 enfermeiros, o Sindicato dos Enfermeiros Portugueses (SEP) anunciou, durante um discurso dirigido aos profissionais, que se «avizinha um despedimento em massa», que levará ao despedimento de quatro mil a cinco mil enfermeiros.

Questionado sobre estes números, o dirigente do SEP José Carlos Martins confirmou-os, adiantando que já há algumas administrações que têm identificado o número de profissionais dispensáveis nos serviços, caso os horários de trabalho sejam alargados.

«Entendemos que mesmo que passem para as 40, os outros serviços estão muito carenciados e podem absorvê-los, mas não é essa a intenção do Ministério da Saúde. A intenção é de facto despedir, até porque já correm listas com números de enfermeiros, nesta perspetiva de despedir», afirmou aos jornalistas.

Os enfermeiros reclamam para a classe um regime de exceção que lhes permita manter as 35 horas de trabalho semanais ¿ e não as 40 horas previstas para a administração pública ¿ devido à penosidade do trabalho que desempenham.

«Mantermos o atual regime das 35 horas, porque é o que a OIT [Organização Internacional do Trabalho] e a OMS [Organização Mundial de Saúde] aconselham como ajustado à penosidade da profissão de enfermeiro, e aliás está afixado numa convenção para todo o mundo», sublinhou o sindicalista.

Presente na manifestação, o dirigente do Bloco de Esquerda João Semedo partilha da opinião de que a atividade de enfermeiro deve ser passível de um regime de horário diferente (que não as 40 horas previstas), em nome da qualidade dos serviços de saúde que são prestados.

«Não reclamamos nenhuma exceção, nenhum benefício para os trabalhadores da saúde, apenas reclamar que para atividades diferentes haja regimes e estatutos diferentes», afirmou João Semedo aos jornalistas.

Esta opinião é sustentada na necessidade que «as atividades em saúde têm de ter intervalos» ¿ para que os profissionais descansem ¿ e não podem ter uma duração máxima ilimitada, «porque a frescura física e psíquica são essenciais para o bom desempenho e é o que dá qualidade ao SNS».

Segundo José Carlos Martins, a adesão à greve foi na tarde de terça-feira de 77,7% e de 82% durante a noite.

Quanto às consultas de enfermagem nos centros de saúde e às cirurgias nos hospitais, o sindicato não tem números concretos, mas diz que muitas não foram realizadas, embora as pessoas tenham sido «atempadamente avisadas», e que as urgentes foram todas efetuadas.

O secretário-geral da CGTP, Arménio Carlos, e a deputado do PCP Paula Santos também marcaram presença na manifestação, onde foram gritadas em permanecia palavras de ordem como «Direitos conquistados não podem ser roubados», «enfermeiros despedidos fazem falta nos serviços», «enfermeiros despedidos, utentes desprotegidos», ou «Governo escuta, os enfermeiros estão em luta».