Quase metade das mulheres inquiridas num estudo sobre as experiências de nascimento em Portugal afirmou não ter tido o parto que queria, com algumas a denunciarem situações de violência obstétrica.

O inquérito “Experiências de Parto em Portugal” foi realizado pela Associação Portuguesa Pelos Direitos da Mulher na Gravidez e Parto (APDMGP), que sábado apresenta as conclusões do estudo, durante o primeiro encontro da organização, intitulado “Nascer em Amor”.

O questionário online foi lançado há um ano, tendo contado com 3.378 respostas válidas de mulheres que foram mães entre 2012 e 2015.

Das inquiridas, 33,2% (1.121) teve parto por cesariana e 66,8% (2.257) dos bebés nasceu por via vaginal.
Em relação às intervenções nos partos, 71,3% (1.609) das inquiridas disse que sofreu alguma intervenção, da totalidade dos partos vaginais.

Apenas 19,2% (648) do total de partos foram considerados pelas mulheres como partos vaginais sem intervenções.
Questionadas sobre se o parto que tiveram correu como o desejado, a maioria das mulheres (56,5%) afirmou que sim, enquanto quase metade (1.468 mulheres) responderam negativamente.

O estudo inclui exemplos de situações que estiveram na origem do descontentamento das parturientes, como o recurso à episiotomia (incisão na região do períneo), o rebentamento das águas artificialmente ou posições de parto não desejadas.

Algumas mães lamentaram ainda o desrespeito pelo seu tempo e o do bebé e algumas informações erradas, bem como “erros de administração na medicação”.

“Os testemunhos parecem revelar que as mulheres que afirmaram ter tido o parto que queriam não são apenas aquelas cujo parto se desenrolou de acordo com as suas expetativas. Foram também as mulheres que se sentiram respeitadas, que foram consultadas a cada momento, sempre que havia necessidade de intervenção (…)”, lê-se no relatório do estudo.

Os autores do estudo sublinham “o caso particular da episiotomia”, usada em 70 por cento dos partos em Portugal, quando a Organização Mundial de Saúde (OMS) indica uma taxa média que não deverá exceder os 10%.

O inquérito apresenta ainda alguns exemplos de práticas não recomendadas e classificadas de violência obstétrica, como a manobra de Kristeller (pressão na parte superior da barriga para ajudar a expulsar o bebé) ou procedimentos sem consentimento esclarecido ou contra a vontade da mulher.

“É reconhecido que os cuidados de boa qualidade exigem a eliminação de abusos e maus-tratos durante a gravidez e parto, sendo toda a intervenção baseada no respeito pela dignidade humana, sem discriminação. Isto só pode ser facilitado através de uma abordagem para a saúde baseada em direitos humanos”, defendem os autores do estudo.
A grande maioria das mulheres inquiridas (97,8%) pariu em contexto hospitalar, sendo o serviço público o local mais frequentado, com uma percentagem que corresponde a 71,1% dos partos (2.403).

Pouco mais de um quarto das mulheres (26,6%) teve o seu bebé em instituições privadas e 74 (2,2%) teveram o seu parto no domicílio.