O diretor do Programa Nacional para a Saúde Mental da Direção-Geral da Saúde (DGS), Álvaro Carvalho, afirmou hoje existir «uma relação direta entre a saúde mental e o grau de diferenciação cultural, social e económico».

«A questão da saúde mental não é estritamente um problema de saúde», disse, acrescentando que «as pessoas menos diferenciadas cultural, social e economicamente têm maior probabilidade de ter problemas da saúde mental».

Falando aos jornalistas na cerimónia que assinala hoje, no Porto, o Dia Mundial da Saúde Mental, e a propósito do estudo «Saúde Mental em Números», Álvaro Carvalho salientou que esta relação permite «considerar que a saúde mental é muito mais transversal e não apenas um problema de psiquiatria».

Para o responsável, há, assim, todo um trabalho a fazer para «melhorar ou reduzir as desigualdades sociais e em saúde», que implica «muita articulação» dos profissionais com os cuidados primários, mas também «de outros setores da governação e da sociedade civil».

Tendo em conta que o trabalho realizado sobre a prevalência na comunidade da saúde mental foi efetuado «do início da crise», Álvaro Carvalho adiantou estar já garantido financiamento para «replicar, com a mesma amostra», este estudo, para que se possa «avaliar se houve ou não repercussão junto das mesmas pessoas da situação de crise» atual.

«Aquilo que se sabe da evidência científica internacional é que as repercussões na saúde mental das situações de crise são muito rápidas a estabelecerem-se e, muitas vezes, são muito dramáticas, sobretudo em termos de quadros de ansiedade e depressão», que, em casos mais complicados, podem terminar em suicídio, sublinhou.

Para Álvaro Carvalho, apenas dentro de quatro a cinco anos será possível «perceber as tendências» do suicídio no país, uma vez que o Sistema de Informação de Certificados de Óbito «só a partir do fim do ano» deverá cobrir a totalidade do território nacional.

O responsável defendeu uma aposta num «diagnóstico mais precoce» na saúde mental, afirmando estar para breve a promoção junto dos cuidados primários de saúde, designadamente dos clínicos gerais, «uma formação para melhorar a sua capacidade de diagnóstico e terapêutica em relação às situações depressivas».

Vai também avançar uma outra formação «de reforço da resiliência em pessoas que estão desempregadas, dado que se sabe ser um grupo populacional com particular risco de agravamento ou desencadeamento de situações depressivas ou ansiosas», acrescentou.

Álvaro Carvalho referiu que estas ações de formação já têm financiamento garantido e, em breve, será lançado um concurso público «para que haja entidades que promovam a aplicação dessas metodologias».