O jornalista norte-americano Glenn Greenwald destaca no livro «Sem Esconderijo», que vai ser lançado na sexta-feira em Portugal, «a coragem» do ex-analista dos serviços de informação norte-americanos Edward Snowden ao denunciar a espionagem global.

A primeira mensagem de Edward Snowden para o jornalista ocorreu em dezembro de 2012 na sequência da leitura dos artigos de Greenwald sobre temas políticos apreciados pelo ex-analista da Agência Nacional de Segurança (NSA) dos Estados Unidos.

No entanto, só em abril de 2013 é que Snowden envia a Greenwald, por e-mail, os primeiros documentos classificados da NSA e que surpreenderam de imediato o jornalista.

O livro «Sem Esconderijo ¿ O Caso Snowden nas palavras de quem o revelou», que vai ser lançado em Portugal na sexta-feira pela Bertrand Editora, relata depois o encontro em Hong Kong, em que Greenwald foi acompanhado pela realizadora de documentários Laura Poitras.

«A coragem de Snowden, aliada à relativa facilidade em copiar informação digital, permitiu-nos ter uma visão, em primeira mão e sem paralelo, de como o sistema de vigilância efetivamente funciona», sublinhou Greenwald, que ao longo do livro detalha as atividades do Programa PRISM, de vigilância de mensagens de correio eletrónico e ligações telefónicas em todo o mundo sob a justificação da luta contra o terrorismo.

«Ao longo das últimas décadas, os líderes norte-americanos têm tirado partido do medo do terrorismo ¿ alimentado pelos constantes exageros da verdadeira ameaça que este constitui ¿ para justificar uma série de políticas extremistas. Este medo tem levado a guerras de agressão, regimes de tortura por todo o mundo, e à detenção (e até homicídio) de cidadãos estrangeiros e norte-americanos sem acusação», escreveu o jornalista que publicou a denúncia de Snowden sobre o escândalo NSA.

O livro aborda ainda outros casos como o processo WikiLeaks, de Julian Assange, e as ações do soldado Maning, que forneceu as informações sobre ações ocorridas durante a invasão do Iraque e da intervenção militar no Afeganistão.

Além dos casos de vigilância, Greenwald relata o longo processo político que acompanha os atos de vigilância e a resposta da administração do Presidente norte-americano, Barack Obama, e do Governo britânico sobre Edward Snowden, acusado de espionagem, e que se encontra atualmente refugiado na Rússia.

Para Greenwald, a denúncia sobre o policiamento a nível global sobre as sociedades através da Internet pode, eventualmente, provocar mudanças políticas e ideológicas.

«A Internet não é, sobretudo para a geração mais nova, um domínio de isolamento e separação onde algumas das nossas funções vitais são desempenhadas. Não é apenas o nosso serviço de correio ou o nosso telefone. Trata-se antes do epicentro do nosso mundo, o lugar onde praticamente se faz tudo», escreveu.

«A Internet é o lugar onde estabelecemos amizades, onde escolhemos livros e filmes, onde o ativismo político é organizado, onde as informações mais privadas são criadas e armazenadas. É na Internet que desenvolvemos e expressamos a nossa verdadeira consciência», referiu o jornalista.

Transformar a rede num sistema de vigilância massificada tem implicações nunca antes vistas em qualquer programa de vigilância e por isso, afirmou Greenwald, as revelações de Snowden são surpreendentes e de primeira importância e tornou claro que o mundo se encontra numa encruzilhada histórica.

«Irá a era digital anunciar a libertação individual e as liberdades políticas que apenas a Internet pode desencadear? Ou irá ela trazer um sistema de supervisão e controlo omnipresentes, muito além dos sonhos dos maiores tiranos do passado», questionou o jornalista.

Glenn Greenwald alerta também no livro para os efeitos negativos da vigilância estatal sobre a liberdade de imprensa e dos cidadãos, controlados através do medo e da manipulação.