Já vão em duas as demissões no Exército português. Depois do comandante de Pessoal, José Antunes Calçada, agora é a vez do general Faria Menezes, atual comandante operacional das Forças Terrestres. Com uma diferença de poucas horas, anunciaram que vão sair, indignados com a atuação do chefe do Estado-Maior do Exército

O general Faria Menezes vai apresentar a sua demissão a Rovisco Duarte, na próxima segunda-feira. Ao Expresso, e à semelhança do que aconteceu com o general Calçada, também mostrou existirem divergências com Rovisco Duarte, quanto à forma como foi gerido o caso do roubo de armamento militar em Tancos.

Com a exoneração dos cinco comandantes houve uma quebra do vínculo sagrado entre comandantes e subordinados. Por respeito aos princípios e valores que perfilho, vejo-me obrigado a pedir a exoneração como comandante das Forças Terrestres”

O general garante que a sua decisão em nada está relacionada com o facto de não ter sido escolhido para vice-chefe de Estado-Maior do Exército.

No Facebook, Faria Menezes escreveu que "o vínculo sagrado da confiança entre comandante e soldados nunca pode ser quebrado".

Também hoje, horas antes, o comandante do Pessoal do Exército, José Antunes Calçada, tinha anunciado a sua demissão, igualmente avançada pelo Expresso. Uma decisão tomada por "divergências inultrapassáveis" com o Chefe do Estado-Maior do Exército. Houve um acumular de discordâncias ao longo dos últimos meses, em que o caso de Tancos foi a gota de água.

Para o general Calçada, a forma como o CEME decidiu exonerar cinco comandantes por causa do furto de armamento foi "inqualificável".

O chefe de Estado-Maior do Exército marcou presença, este sábado à noite, numa homenagem às vítimas dos incêndios, em Pedrógão Grande, onde se recusou a comentar as decisões dos dois generais. Rovisco Duarte não respondeu às perguntas dos jornalistas.

O Exército divulgou, durante a tarde, um comunicao a confirmar que o tenente-general Antunes Calçada apresentou declaração de passagem à situação de reserva "a qual foi aceite pelo general chefe do Estado-Maior do Exército", Rovisco Duarte.

"A fim de assegurar a manutenção da cadeia de comando" foi nomeado o vice-chefe do Estado-Maior do Exército, tenente-general Rodrigues da Costa, "para assumir o cargo de Comandante do Pessoal em acumulação", refere o comunicado, que é omisso quanto à decisão do atual comandante operacional das Forças Terrestres que, para todos os efeitos, será tornada oficial só na segunda-feira.

O presidente da Associação de Oficiais das Forças Armadas (AOFA), coronel António Mota, reagiu às demissões, dizendo que "são absolutamente legítimas".

As tomadas de posição dos tenentes-generais são absolutamente legítimas e legais, sendo decisões que apenas a eles respeitam"

Recorde-se que o general Rovisco Duarte decidiu exonerar os comandantes até estarem concluídas as investigações internas que determinou. Uma decisão que não foi consensual na estrutura do Exército, mas que foi assumida como um ato de comando que, segundo entendeu, melhor protegia os comandantes na fase das investigações.

Ao início da noite deste sábado, o CDS-PP mostrou-se "muito preocupado" com demissões no ramo e quer que o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, intervenha. O partido liderado por Assunção Cristas considera que "o ministro da Defesa está muito debilitado".