A Associação dos Oficiais das Forças Armadas (AOFA) fez esta quarta-feira um balanço, com críticas tanto ao poder político como às chefias. Considera que a instituição militar é «desconsiderada e discriminada» há «largos anos» pelo primeiro  e as segundas desempenham um papel «manifestamente insuficiente», denuncia.

«O descontentamento e a desmotivação dos militares ascendeu a níveis muito preocupantes, com reforçada incidência nos oficiais», lê-se num documento de balanço sobre «as principais questões que afetam os militares e a condição militar», da autoria do Conselho Dentológico da AOFA, presidido pelo almirante Castanho Paes.

Os principais motivos da insatisfação são o «afastamento progressivo das remunerações em relação às categorias profissionais de referência», a «degradação» da saúde militar ou do fundo de pensões das Forças Armadas e as alterações «insidiosas» ao Regulamento de Disciplina Militar.

«A atuação dos órgãos de Estado parece fazer crer que se pretende que o militar jure defender a Pátria com o sacrifício da própria vida, enquanto a sua situação social e a da sua família se agrava continuamente, e que se espere placidamente que o patriotismo tudo resolva, quando permite que se aprofundem clamorosas desigualdades sociais entre membros das várias instituições que participam na ação estratégica do Estado», sustenta o Conselho Deontológico da AOFA, que é citado pela Lusa.

A organização salienta que os oficiais estão «conscientes da situação crítica em que o país se encontra» e «não pretendem eximir-se aos sacrifícios», mas «legitimamente entendem que a repartição dos sacrifícios pelos cidadãos deveria ser universal e mais justamente distribuída».

«Por mais que os representantes dos sucessivos poderes políticos que têm dirigido os destinos de Portugal, após a instituição do regime democrático, procurem esforçar-se por tentar provar o contrário, através de declarações públicas e artigos nos órgãos de comunicação social, num bem concertado enquadramento político, o facto é que se tem efetivamente verificado uma degradação progressiva da Instituição Militar nacional, com perigosas consequências na capacidade de defesa militar do país»


As chefias militares também são visadas neste balanço do Conselho Deontológico da AOFA: «As suas diligências têm sido manifestamente insuficientes e pouco eficazes, mormente desde que a escolha dos chefes militares passou a ser, por alteração da Lei da Defesa Nacional, uma competência exclusiva do governo, na proposta ao Presidente da República».

«Ao longo dos últimos anos gerou-se assim no meio militar a convicção de que os chefes do topo da hierarquia têm sido pouco firmes e determinados, quer na defesa dos interesses nacionais subjacentes às importantes missões que competem às Forças Armadas, quer na defesa dos legítimos e justos anseios e expectativas dos militares»


Já o Ministério da Defesa é acusado de não cumprir a lei e de sistematicamente «desconsiderar as questões e pontos de vista» das associações militares.