A agricultura realizada pelos pequenos agricultores, nomeadamente a ecológica (biológica), é uma forma mais sustentável de produzir alimentos e também de garantir de forma mais eficaz a segurança alimentar no mundo, de acordo com uma responsável da ONU.

“A agricultura ecológica (biológica) está mais voltada para as pequenas propriedades, com uma nova abordagem, como está a acontecer em vários locais em França. Temos de utilizar de forma mais racional o sistema ecológico para a produção agrícola”, declarou Hilal Elver, relatora especial das Nações Unidas para o Direito à Alimentação.


A responsável da ONU fez estas declarações durante a conferência "Direito humano a uma alimentação adequada: desafios e oportunidades a partir de diferentes geografias", no Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), em Lisboa, que a Lusa reporta. 

Segundo a relatora especial, “é necessário realizar uma adaptação e uma mitigação neste campo", mas isso "não é interessante para as grandes corporações do setor da alimentação".

De acordo com Hilal Elver, as mudanças deveriam ser feitas a nível local, sobretudo se houver políticas específicas para os pequenos produtores, que poderão alimentar a sua família e a sua comunidade e todo o sistema ao seu redor.

A funcionária da ONU disse que os pequenos produtores que vivem ao redor de Nova Iorque (mais ou menos 60 quilómetros) poderiam alimentar a cidade e também todo o Estado de Nova Iorque.

Segundo Hilal Elver, os governos, através de políticas específicas para o setor, deveriam ajudar os pequenos produtores a serem mais eficazes na produção dos alimentos.


“Apenas cerca de 30% das terras produtivas no mundo estão nas mãos de pequenos produtores e dois terços dos pobres no mundo não tem acesso à proteção social dos governos. Setenta e cinco por cento dos produtores rurais são pobres”, sublinhou.


Segundo a responsável da ONU, o papel das mulheres, que são responsáveis por 50 por cento da agricultura mundial, “deve ser valorizado”.

A relatora lembrou ainda as previsões que entre 15% a 40% das nove mil milhões de pessoas no mundo em 2050 estarão sujeitas a uma maior insegurança alimentar devido a problemas climáticos, defendendo que “é preciso utilizar os recursos naturais de forma mais sustentável, nomeadamente a água potável, utilizar a terra de forma mais eficiente, mudar hábitos alimentares e diminuir os desperdícios”.

Para a relatora, “os governos têm de criar estruturas para que as pessoas possam ter acesso à alimentação, seja produzindo os seus alimentos ou seja através de empregos, que fornecem os recursos para a aquisição dos alimentos”, reforçando a necessidade de marcos jurídicos neste setor.

Segundo Hilal Elver, os dois principais problemas no século XXI neste setor, entre outros, são a globalização e as alterações climáticas.

Segundo o último relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), 795 milhões têm fome crónica no mundo.

Os Objetivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM) estabeleceram a meta de, até 2015, reduzir para metade o número de pessoas que passam fome.

“Este objetivo não foi conseguido. Tivemos alguns casos de sucesso, como na América Latina, nomeadamente no Brasil, e países como a China e Índia mas, infelizmente, em outras regiões, como na África subsaariana, o quadro não progrediu e até houve um aumento da fome”, disse.