O pai de Adriana morreu no “pior dia do ano em matéria de incêndios”, como o classificou a Proteção Civil. O tio de Adriana também. Foi no dia 15 de outubro, um dia que era para ser de festa, que Adriana Simões perdeu duas das mais importantes pessoas da família.

Um mês depois, a jovem designer gráfica e blogger regressa emocionalmente ao passado para recordar os últimos minutos de uma família feliz e para lamentar o que nunca chegará a viver ao lado do pai.

É parte do texto que escrevi sobre este dia. É parte dos relatos que estão no meu caderninho de escrita. É parte daquilo que eu senti sobre o que aconteceu. Não quis entrar em pormenores, não quis contar tudo o que aconteceu neste dia - em respeito a ELES, à minha família, a mim, e a esta história que tem tanto de trágica como de pessoal. Quis dar-vos a conhecer esta perda, quis homenagear o meu pai publicamente mas tentei fazê-lo de forma não explícita pois a história guardo-a para nós”, escreve Adriana, no texto que acompanha o vídeo de cinco minutos, onde lê uma carta emocionada ao pai.

Leia aqui a carta na íntegra:

“Foi no dia 15 de outubro de 2017. Eram duas e meio da tarde. Eramos quatro e estávamos a preparar-nos para a festinha de aniversário da Inês. Aliás, eramos cinco. O Rafael estava connosco, como sempre está em qualquer reunião de família.

Lá por cima, como costumávamos dizer, andava tudo a arder. Não tudo, mas esta era a forma que encontrávamos de dizer que o fogo se tinha acendido e que a probabilidade de chegar a afetar-nos era grande.

A mãe disse para irmos andando para a festa. Eu e o Rafael. Deu-me o cartão de crédito, o pin, disse-nos que escolhêssemos uma prenda para a menina e que fossemos andando, que logo lá iam ter.

E assim fizemos.

Recebi um telefonema da mãe: ‘vão para a festa. O fogo já anda no quintal do avô e nós vamos para cima’. Desliguei pensando o que pensei das outras vezes em que pai, avôs, tios tinham ido combater os fogos que alguém por maldade, de anos em anos, decidia atear.

Mas o fogo este ano queimou mais, ardeu mais, doeu mais.

A mãe ligou. Estávamos no carro. A caminho da casa da avó. E a mãe disse: ‘Adriana, o barracão para onde o teu pai fugiu está a arder. Desliguei o telefone, gritei, chorei, esperneei, fiz o Rafael ir mais rápido. Eu não sabia ao que me agarrar. Não sabia no que acreditar. Terias fugido? A mãe acreditou sempre que sim.

Eram quase sete horas e estávamos todos reunidos em casa da avó. Em prantos, aflitos, os telemóveis já não tinham sinal. Nem o teu, nem o do tio, nem o do avô… Não conseguíamos falar com ninguém dali, porque as linhas de comunicações tinham ardido todas. As botijas de gás explodiam por aquelas aldeias fora.

Eu previ tudo, pai. Mas as certezas da mãe fizeram-me ter uma pontinha de esperança que voltasses. Ferido, queimado, mas que voltasses.

Afinal, a casa onde estavas não era segura, pai. E não era uma casa, era um barracão. Mas tu achaste que estavas seguro ali. Tu disseste à mãe ‘eu estou bem, este sítio é seguro’. E, 10 minutos depois, ninguém sabia mais de ti. Foram nove horas intermináveis à procura de contactos a quem nos pudéssemos agarrar para saber de vocês. Se estavam em casa de alguém, se estavam no hospital, se estavam caídos algures, onde ainda alguém os pudesse ir salvar. Mas não.

Sabíamos que o avô estava bem, porque íamos falando com ele. Mas de vocês, nada.

À meia-noite, confirmaram-nos, pai. Nunca mais te veria. Colapsei. Achei que iria contigo porque a dor era tão forte, tão dilacerante, tão grande, tão profunda, tão revoltante, que achei que não teria mais força para sequer me levantar novamente daquele sofá.

Foste tão cedo. Não me viste assinar o meu primeiro contrato. Não me levaste ao altar. Nunca te chamaram de avô. Nunca chegaste a entrar na tua nova casa, pai, que era o teu sonho e da mãe. E o projeto estava aprovado.

Foi tão difícil perder-te pai. O tio tentou ajudar-te, mas ficou lá contigo. Sabes? Eu acho que ele tentou trazer-te, mas a não conseguir preferiu acompanhar-te na tua ida a deixar-te sozinho naquela situação. Ele não conseguiria lidar com isso. Ele não conseguiria vir embora e deixar-te morrer.

Perdi-te para a coisa mais horrível que pode ameaçar alguém. Mas continuo a amar-te. Continuo a achar que foste a melhor pessoa que eu conheci em toda a minha vida. Que admiro muito a tua força de vontade. Aquela que eu também herdei, sabes? De ti. E a tua alegria em ver os outros felizes. A tua prontidão em ajudar. A tua calma para apaziguar as demais situações.

Acho que a última vez que te disse isto, pai, tinha uns quatro anos. Mas eu amo-te. És o melhor do mundo. E acredita: aquilo que deixaste cá por fazer, eu vou fazê-lo por ti. Prometo.”