O filósofo José Gil traçou hoje, em Macau, previsões pessimistas para o futuro de Portugal e defendeu que a presença da «troika» aniquilou a capacidade de sonhar dos portugueses.

«A troika trouxe o real. O português deixou de sonhar. Hoje, sobrevive-se num dia-a-dia precário e cheio de incerteza. Não há ninguém no Governo que tenha uma ideia para Portugal, do que vai ser o país em 2020 ou em 2030», afirmou perante uma audiência de portugueses, macaenses e chineses que assistiram à palestra «Desejo e Medo de Existir».

«As expectativas para o futuro desapareceram. Vive-se e aceita-se uma democracia sem substância. Não se pode viver sem crença e sem esperança», concluiu.

Durante cerca de hora e meia, José Gil explicou o que considera ser uma «diminuição ontológica do ser português», que ganhou força nos anos da ditadura. «Encoberto pelos nossos heróis e o nosso império, fabricou-se um medo especial: o medo de existir, o medo de afirmar publicamente», disse.

Esse medo, que gerou uma «servidão voluntária», prolongou-se depois do 25 de abril, com «as mentalidades a tomarem uma tal dimensão que substituem a lei».

Esta característica consubstancia-se no «temor por arriscar», na «resistência a reformas», em «leviandade e irresponsabilidade», «medo do confronto político aberto» e numa inveja que «ultrapassa os indivíduos e forma o sistema».

Questões que tiveram eco entre alguns dos presentes, que acreditam que Macau herdou o «medo de existir» de Portugal.

«São questões filosóficas muito importantes para Macau e que se aplicam à vida, a cultura e às pessoas desta cidade. E também ao Governo e aos serviços públicos. É uma questão histórica», disse à agência Lusa Ben Wong, investigador do Centro de Pesquisa Estratégica para o Desenvolvimento de Macau.

Anteriormente, ao colocar uma questão, Ben Wong comentou que a palestra «ajudou a compreender melhor Macau» e citou uma afirmação do filósofo de que «uma parte dos portugueses não assume as responsabilidades do que acontece em Portugal», defendendo que «isso também aconteceu em Macau».

Miguel Senna Fernandes, advogado e presidente da Associação dos Macaenses, estabeleceu um «paralelismo» entre a situação descrita por José Gil e a realidade dos portugueses em Macau, tanto no passado como no presente.

«Tocou-me um bocado, talvez por ser português do Oriente. Há pontos de contacto. A história de Macau passou por essas fases de não inscrição de determinados fenómenos, talvez ditadas pelas circunstâncias históricas da presença de uma comunidade não-chinesa», comentou.

Senna Fernandes salientou que «Macau nasceu por acaso e existiu à mercê de uma certa tolerância dos que não era portugueses». Por esse motivo, houve sempre um especial cuidado em «não dizer as coisas para não perigar a nossa presença em Macau».

«À custa da diplomacia tivemos de sacrificar determinadas posições que porventura teríamos tomado noutras circunstâncias», defendeu.

O artista veterano António Conceição Júnior acredita que Macau herdou «parte da realidade» portuguesa. «Aquilo que é aplicável em Portugal também é, de certo modo, aplicável em Macau, até devido à presença portuguesa e tanto mais que a matriz é portuguesa», destacou.

Conceição Júnior encontra especial paralelismo na noção de José Gil de «transgressão», na política e nas relações sociais.

«Macau é uma cidade de transgressões e as transgressões são sempre perversas. Em Portugal existe a promiscuidade que existe e em Macau as relações são idênticas», salientou.