O facto de haver prevalência de gordura no fígado, mesmo sem consumo alcoólico excessivo, será "a próxima grande causa de doença hepática" em Portugal, advertiu esta quarta-feira a presidente da Associação Portuguesa para o Estudo do Fígado (APEF).

Helena Cortez-Pinto, que é especialista em gastrenterologia, diz que a situação "é preocupante" em Portugal.

Segundo um estudo recente no âmbito do Projeto E-Cor, verifica-se a prevalência de gordura no fígado - estateose hepática - sem consumo alcoólico excessivo em mais de um quarto (26%) da população portuguesa.

"No entanto, ainda não vemos com tanta frequência como nos EUA [casos de] cirrose associada à esteatose hepática não alcoólica [(EHNA)]", acrescentou Helena Cortez-Pinto.

"Talvez o facto de muitos doentes associarem o risco metabólico (obesidade, etc.) ao consumo excessivo de álcool leva a que a doença não seja tão frequentemente reconhecida, por ser atribuída ao álcool".


A causa mais frequente da EHNA é "o aporte calórico excessivo associado à reduzida atividade física", apontou a especialista do Hospital de Santa Maria.

Os médicos portugueses têm participado em congressos com investigação básica e clínica "a ser publicada em revistas médicas de elevado impacto", confessou, no entanto, cingem-se, perante o doente, a "propostas terapêuticas" para controlar situações frequentemente associadas a esta condição, como sejam a diabetes, dislipidémia ou hipertensão.

"Na prática atual, os médicos portugueses estão a lidar com a situação, avaliando em cada doente qual a gravidade da situação e o seu risco de progressão, e aconselhando sobretudo a mudança de estilo de vida, com aumento da atividade física e dieta, visando a perda de peso nos indivíduos obesos ou com sobrecarga de peso"

Tratamento

Helena Cortez-Pinto referiu, em relação ao tratamento, que há planos para que Portugal entre num ensaio clínico multicêntico com o ácido obeticholic, que deverá começar no fim deste ano.

"Existem, no entanto, outros medicamentos que também estão ou vão ser testados a breve prazo para esta doença, como por exemplo carbonos nanoporosos adsorventes", medicamento que faz parte de um protocolo do Horizonte 2020, no qual a Faculdade de Medicina de Lisboa e o Departamento de Gastroenterologia são parceiros, acrescentou.

Investigadores médicos norte-americanos disseram à Lusa acreditar que "dentro de cinco anos haja um medicamento que cure a galopante 'epidemia' da inflamação hepática não alcoólica". No presente, "um novo fígado é a única opção para muitas pessoas".

Joel Levine, um dos especialistas envolvidos nestas investigações, referiu que esta doença "brevemente será o principal motivo para o transplante de fígado", apesar de, presentemente, ser "a causa número dois".

Reforçou, ainda, o facto da EHNA ter passado despercebida, principalmente porque "os médicos a confundiam com a hepatite alcoólica, que também envolve o acumular de gordura no fígado".

O especialista explicou que a distinção surgiu, sobretudo, após aparecer um elevado número de casos de crianças com o problema, algumas já com cirrose hepática, o que ajudou a dissipar quaisquer dúvidas de que a doença não estava relacionada com o consumo excessivo de álcool.