Sofia tem 37 anos e Pedro 46. Há oito anos, mudaram-se de armas e bagagens para Ferraria de São João, no concelho de Penela. Apaixonaram-se pela terra que não era a deles, mas onde querem ver crescer os dois filhos.

Este ano, o incêndio de junho fê-los repensar a decisão. Sofia, professora em Pedrógão Grande, confessa que chegou a cogitar abandonar o projeto de vida e sair dali. Ver o fogo aproximar-se perigosamente da aldeia marcou-a. As opções eram sair e não mais voltar ou mudar o que era preciso para proteger Ferraria de São João de futuros incêndios.

A aldeia só não ardeu porque um sobreiral criou uma barreira ao fogo que devorou o manto de eucaliptos que circundava a povoação. Os eucaliptos esses “arderam todos”, mesmo os que estavam no perigoso perímetro de menos de 100 metros das casas.

Foi um momento tão angustiante que as pessoas sentiram necessidade de fazer alguma coisa. E as pessoas viram que o fogo chegou à zona dos sobreiros e extinguiu-se naturalmente. Os sobreiros que arderam eram os que tinham eucaliptos pelo meio. As pessoas perceberam que a proteção em relação ao fogo estava nos sobreiros”, explica Sofia Sampaio, em declarações à TVI24.

A Associação de Moradores de Ferraria de São João decidiu então acabar com os eucaliptos num perímetro de 100 metros em torno da aldeia e reflorestar a zona com árvores autoctones – sobreiros, carvalhos, castanheiros cerejeiras, nogueiras, azevinho e medronheiro.

O primeiro passo foi arrancar as raízes dos eucaliptos que arderam. “Isso era urgente, antes que rebentassem de novo. Mas, antes, tivemos que fazer um cadastro e descobrimos 255 parcelas de 77 proprietários diferentes. Depois foi falar com as pessoas, obter autorizações e avançar para o terreno”, relata Pedro Pedrosa.

Houve 12 reuniões com a população e a decisão de limpar os terrenos de eucaliptos e reflorestá-los com árvores da região foi tomada nessas reuniões. Decisão praticamente unânime. Os que não se tinham convencido com a força do fogo de junho deixaram-se convencer pela força dos outros.

Em julho e agosto, as máquinas avançaram para os terrenos, que foram limpos de todas as raízes de eucaliptos queimados.  Num perímetro de 100 metros da aldeia já não há um único eucalipto.

Sofia e Pedro são só dois dos rostos do projeto que tem como lema "Vamos fazer acontecer". A eles juntaram-se o António, a Maria, o Ricardo e a Catarina. E a senhora Arlete e o Senhor Manuel e o senhor António e a dona Isabel e toda uma aldeia que, de repente, passou a ser muito maior que os seus 39 habitantes. Uma aldeia inteira contra os eucaliptos nas proximidades das casas e contra o fogo.

No último fim de semana, juntaram-se mais de 150 pessoas em Ferraria de São João. Limparam os terrenos de ramos e lenha, construiram vias de escoamento para as águas da chuva e começaram a plantar árvores. Mais de 50 novas árvores de espécies autoctones foram plantadas até agora.

Mas o projeto é plantar mais de mil. Para já, não se plantaram mais porque falta a chuva. “Os terrenos estão muito secos. Choveu muito pouco e a rega tem de ser feita manualmente”, lamenta Sofia.

Além disso, não sabemos como vai ser o inverno e o efeito que vai ter nestas árvores jovens. A ideia é fasear as plantações para minimizar as possibilidades de insucesso.”

Até à plantação estar completa, há muito trabalho voluntário para fazer. Para o fim de semana grande de 8, 9 e 10 de dezembro, está já marcada mais uma investida pela reflorestação da aldeia e contra árvores e arbustos infestantes.

Para um projeto desta envergadura, voluntários e apoios nunca são demais. A Associação de Moradores de Ferraria de S. João tem todas as informações na página do Fracebook Amigos de Ferraria de São João ou através do email associacaofsj@gmail.com