O diretor-geral de Saúde, Francisco George, ameaça demitir-se caso Governo e o Parlamento não aceitem o plano de prevenção ao vírus do Ébola. O anúncio foi feito em declarações durante a Comissão de Saúde na Assembleia da República.

«Sem confiança do Governo e da AR têm de mudar os dirigentes da DGS», afirmou esta manhã na Comissão Parlamentar de Saúde, onde esclarece os deputados sobre o plano de prevenção para conter e reagir ao vírus, caso surja em Portugal.  

Francisco George reagia à Ordem dos Médicos, que considera que Portugal não está preparado para lidar com o Ébola, afirmando ainda que as autoridades de saúde têm «passado mensagens de enganosa tranquilidade» à população. As críticas surgem do colégio da especialidade de Saúde Pública que analisou a atividade da doença. 

Os médicos consideram que Portugal é o país europeu mais exposto ao risco de contaminação com Ébola. Ao contrário do que defende o Governo e o próprio Francisco George. Para o director-geral de Saúde, «os riscos de surto de ébola Portugal são baixos».

Num parecer divulgado ontem, o colégio de Saúde Pública alerta também para a necessidade de controlar a entrada de pessoas no país. Já que considera não haver uma vigilância adequada nos portos e aeroportos.

O diretor-geral da Saúde, Francisco George, revelou que o parecer do colégio da especialidade de saúde pública da Ordem dos Médicos sobre o Ébola foi divulgado sem que todos os elementos daquele órgao fossem consultados.

De acordo com Francisco George, houve elementos do colégio da especialidade de saúde pública que já solicitaram uma reunião daquele órgão para avaliar o documento, que foi publicado no site da Ordem ds Médicos.

Nesse documento, assinado por Pedro Serrano, da direçao do colégio da especialidade de saúde pública, e noticiado hoje pela imprensa, os especialistas consideram que "o risco teórico de virmos a ter casos de Ébola em Portugal é alto" e que isso está "fortemente associado ao posicionamento de Portugal como país integrante daquilo que se convencionou chamar Países de Língua Oficial Portuguesa".

Os especialistas fazem ainda uma contextualização das relações, geográficas e humanas de vizinhança dos três países onde grassa a epidemia (Serra Leoa, Guiné-Conacri e Libéria) e os países lusófonos com permanente ligação a Portugal: Guiné-Bissau, Angola, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde e, mais remotamente (em termos de risco de exportação), Moçambique.

"Dadas as antigas e fortíssimas relações de proximidade e de actual plataforma giratória entre este grupo de países, nenhum outro país europeu está tão em risco de ser contaminado do exterior, a partir dos grandes centros de foco da doença em África, como Portugal", refere o parecer publicado no site da Ordem dos Médicos.

O documento sublinha os sistemas da saúde frágeis destes países, considerando "praticamente inexistente" a vigilância epidemiológica" (particularmente a de nível local).

Os especialistas defender ainda que é "evidente e urgente que seja montada, implementada ou reforçada em Portugal uma apertada vigilância dos aeroportos e portos, o que incluiria uma presença permanente de estruturas de Saúde Pública e a formação em medidas de Saúde Pública do pessoal aeroportuário que controla a entrada de passageiros".

"Seria também importante criar uma base de dados com os portugueses que residem nestes e noutros países de África considerados de risco, de molde a conseguir monitorizar as deslocações entre zonas de risco e a fazer-lhes chegar informação sobre as medidas a adoptar para a sua segurança", acrescentam.

No parecer, os especialistas do colégio de saúde pública consideram ainda que Portugal não está preparado para lidar com o vírus do Ébola e que as autoridades têm emitido "mensagens de enganosa tranquilidade".

Os mais recentes dados apontam para o registo de 8.917 casos, dos quais 4.447 se revelaram mortais, sendo a Libéria, Serra Leoa e a Guiné-Conacri os países mais afetados pelo pior surto de Ébola.