A Confederação Nacional dos Institutos Religiosos de Portugal assinalou esta quinta-feira que o caso de alegada escravidão em Famalicão não ocorreu num convento, mas numa associação de fiéis, pelo que nem as detidas são freiras nem as vítimas são noviças.

Na quarta-feira, três fundadoras da “Fraternidade Missionária Cristo Jovem” e um padre, atual dirigente, foram constituídos arguidos, depois de buscas da Polícia Judiciária, por suspeitas de maus-tratos, escravidão e cárcere a três raparigas, em princípio dadas como noviças - pessoas que se preparam para a sua consagração religiosa.

Fonte da Confederação dos Institutos Religiosos sublinhou, contudo que as mulheres constituídas arguidas não são freiras, nem as mulheres mais novas, de onde partiu a queixa de maus-tratos, são noviças, já que a instituição não é uma congregação, não é um convento, mas sim uma associação de fiéis.

A Fraternidade Missionária Cristo Jovem não está, por isso, sob alçada da Confederação dos Institutos Religiosos, mas da Arquidiocese de Braga, assinalou a fonte à agência Lusa.

Esta tese é corroborada pelo padre jesuíta João Caniço que disse à Lusa que a Fraternidade Missionária Cristo Jovem é uma “sociedade apostólica”, ou seja, um grupo de pessoas que se associaram para fazer uma “obra comum”.

“Não pode ser considerada uma congregação, nem uma instituição religiosa porque não é reconhecida como tal pela Igreja Católica”.


O sacerdote realçou que as mulheres que lá vivem não são freiras porque não têm voto religioso, mas sim “leigas consagradas” porque fizeram apenas voto de trabalhar segundo o espírito daquela instituição.

“Autoproclamam-se irmãs porque trabalham na mesma obra e vivem um cristianismo muito profundo”.


O espaço também não pode ser considerado um convento porque não vivem lá religiosas, sendo apenas a casa da instituição, entendeu.

Num comunicado, a Arquidiocese de Braga assumiu, entretanto, ter iniciado uma investigação interna à Fraternidade Missionária Cristo Jovem, de Famalicão, depois de em 2014 ter recebido queixas de “presumíveis anomalias” na vida diária da comunidade.

“Foi indicado, ao mesmo tempo, um sacerdote para acompanhar mais de perto a vida da Fraternidade Cristo Jovem. Deslocou-se semanalmente à comunidade, dedicou tempo a conversas pessoais com as irmãs residentes e iniciou a elaboração de um relatório contendo as informações necessárias em ordem a uma oportuna decisão”, referiu a Arquidiocese, em comunicado remetido à agência Lusa.

Contactada hoje pela Agência Lusa, a Arquidiocese de Braga não quis prestar esclarecimentos adicionais.

Na sua nota de imprensa, a Arquidiocese de Braga realçou que “as irmãs sempre manifestaram plena liberdade na sua estada”.

As “queixas” de anomalias na instituição foram feitas por ex-membros da Fraternidade Missionária, adiantou.

A Fraternidade Missionária Cristo Jovem nasceu de um movimento para jovens que, posteriormente, construiu um edifício em Requião, Vila Nova de Famalicão, sendo agora uma associação de fiéis com estatutos aprovados a 24 de janeiro de 1978 pela Arquidiocese de Braga.

Foi esta associação que trouxe para Portugal as "cruzes do amor" que ainda podem ser vistas em muitas paróquias e casas particulares e que é considerado um símbolo apocalíptico não reconhecido pela Igreja Católica.