João Soares demitiu-se, esta sexta-feira, do cargo de ministro de Cultura, na sequência do caso das "bofetadas", termo utilizado pelo próprio na sua página pessoal do Facebook e dirigido a dois cronistas do jornal Público.

No entanto, esta não foi a primeira vez que o agora antigo ministro da Cultura viu o seu nome envolvido numa situação polémica.

1.

A primeira polémica desde que foi nomeado por António Costa aconteceu no arranque da campanha de Maria de Belém à Presidência da República e a emoção tomou conta do discurso do ministro. 

Tenho a certeza que se a minha mãe [Maria Barroso] estivesse viva votaria, apoiaria Maria de Belém porque ela tinha uma profunda estima por Maria de Belém."
 

2.

Seguiu-se a demissão do presidente do CCB. A 26 de fevereiro, João Soares considerou que António Lamas tinha de sair do cargo por causa de discordância do projeto de gestão integrada do chamado "eixo Belém-Ajuda", cuja estrutura de missão foi extinta em Conselho de Ministros.

Eu acho que o presidente do CCB tem de sair. E se não sair, eu, na segunda-feira, seguramente o demitirei, usando os instrumentos legais de que disponho"

E a demissão acabou mesmo por acontecer, na segunda-feira, após o governante ter recebido António Lamas para uma reunião, e Elísio Summavielle foi nomeado para o lugar.

3.

Muito ativo no Facebook, João Soares tem utilizado também aquela rede social para lançar críticas. A 1 de março, um dia após a demissão de António Lamas, o ministro da Cultura atacou José Manuel Fernandes, do Observador, pelo seu artigo de opinião "Quero, posso e mando. Chamo-me Soares. João Soares".

No artigo, o colunista escrevia que "António Lamas tinha um projecto para a zona monumental de Belém-Ajuda. Tinha ideias, ambição e capacidade de gestão. João Soares não tem nada disso. Nem dinheiro. Só despeito, amiguismo e má-criação".

Soares não perdeu tempo e, no Facebook, escreveu que José Manuel Fernandes retomava "a melhor tradição da sua formação de jovem estalinista".

 

José Manuel Fernandes, retoma neste texto a melhor tradição da sua formação de jovem estalinista. Bolsa sobre mim um...

Publicado por João Soares em  Terça-feira, 1 de Março de 2016

4.

E foi no Facebook que deu início à polémica que levaria à sua demissão. Em reação a um artigo opinião de um cronista do jornal Público, João Soares “promete um par de bofetadas” a Augusto M. Seabra e também ao colunista Vasco Pulido Valente.

Em 1999 prometi-lhe publicamente um par de bofetadas. Foi uma promessa que ainda não pude cumprir. Não me cruzei com a personagem, Augusto M. Seabra, ao longo de todos estes anos. Mas continuo a esperar ter essa sorte. Lá chegará o dia. Ele tinha, então, bolçado sobre mim umas aleivosias e calunias. Agora volta a bolçar, no "Publico". É estória de "tempo velho" na cultura. Uma amiga escreveu: "vale o que vale, isto é: nada vale, pois o combustível que o faz escrever é o azedume, o álcool e a consequente degradação cerebral. Eis o verdadeiro vampiro, pois alimenta-se do trabalho (para ele sempre mau) dos outros."

Estou a ver que tenho de o procurar, a ele e já agora ao Vasco Pulido Valente, para as salutares bofetadas. Só lhes podem fazer bem. A mim também”, escreveu o ministro no Facebook.

5.

Horas mais tarde, João Soares reagiu - por sms - aos comentários à sua publicação no Facebook e afirmou ser "um homem pacífico".

Nunca bati em ninguém. Não reagi a opiniões, reagi a insultos. Peço desculpa se os assustei"

Também o primeiro-ministro, António Costa, reagiu à polémica, pedindo desculpa aos colunistas do jornal Público ameaçados com “estaladas” e lembrando aos membros do Governo que devem ser “contidos na forma como expressam emoções”.

Tanto quanto sei o doutor João Soares já pediu desculpa aos visados pela forma como se expressou. Eu pessoalmente, quero também expressar publicamente desculpas a duas pessoas, a Augusto M. Seabra, por quem tenho particular estima, e a Vasco Pulido Valente, por quem tenho consideração.  (…) Já recordei aos membros do Governo, que, nem à mesa do café, podem deixar de se recordar que são membros do Governo”

Após os pedidos de desculpa e o "puxão de orelhas" de Costa, João Soares acabou por pedir a demissão, que foi aceite pelo primeiro-ministro.

6.

Se esta sexta-feira João Soares afirmou que foi um "privilégio ter trabalhado com o primeiro-ministro", a verdade é que a relação entre os dois nem sempre foi tão cordial. 

Em setembro de 2014, João Soares atacou António Costa por causa das inundações que atingiram a cidade de Lisboa. Durante no comício da candidatura de António José Seguro às eleições primárias socialista, no pavilhão do Casal Vistoso em Lisboa, o filho do antigo Presidente da República Mário Soares, afirmou que Costa "encolheu-se quando podia ter-se candidato à liderança do PS em 2011, alegando que a sua vocação era ser presidente da Câmara de Lisboa".

Às tantas estava a prever as inundações de hoje", afirmou naquela noite.

No entanto, as quezílias entre ambos já vinham da altura em que António Costa e João Soares disputavam a liderança da FAUL (a maior federação do PS).

7. 

A 8 de maio de 1992, durante uma entrevista cruzada sobre a FAUL, Soares não resistiu a atacar Costa quando este respondeu que foi graças à sua "liderança e pela primeira vez" que "um ministro do Governo foi forçado a fazer um debate na televisão com o coordenador da FAUL"

Lá vem o famoso debate! Só lhe falta dizer que está no PS desde os 14 anos!...”, afirmou o filho de Mário Soares.

A demissão do ministro da Cultura constitui a primeira ‘baixa’ do XXI Governo Constitucional, liderado pelo socialista António Costa, menos de cinco meses depois de ter tomado posse.