A ex-funcionária do Centro Hospitalar de Coimbra (CHC) que é suspeita de ter cobrado dinheiro a mais de 40 utentes em processos de pedidos de reforma antecipada confessou esta segunda-feira todos os crimes, mas negou ter cometido extorsão.

A funcionária, entretanto despedida, terá proposto a mais de 40 utentes os seus serviços, designadamente em pedidos de reforma antecipada, mediante o pagamento de quantias de montante variável, que poderiam atingir o valor de duas ou três prestações da pensão da reforma que viesse a ser atribuída, segundo o despacho de acusação do MP.


Na primeira sessão, a ex-funcionária, que trabalhava como assistente operacional no Gabinete de Informação Clínica, disse no Tribunal de Coimbra confessar "tudo", recusando apenas a acusação de que terá ameaçado um dos utentes de que, caso não entregasse 1.500 euros, iria contar aos seus colegas de trabalho que este era um “caloteiro”.


Segundo a arguida, o homem, que trabalhou como maquinista na CP, aceitou de livre vontade pagar os 1.500 euros, não tendo havido qualquer coação.

A ex-funcionária do CHC mostrou-se arrependida, referindo que, caso soubesse que aquilo que fez era crime, "não tinha feito", sublinhando também o valor baixo das quantias que pedia aos utentes.

O presidente do tribunal coletivo salientou que, estando em causa, na maior parte das situações, reformas de valores "baixos", 100 ou 250 euros "pode ser muito dinheiro", reporta a Lusa.

Durante a sessão, o reformado da CP foi contra o depoimento da arguida, afirmando que, quando a ex-funcionária do CHC lhe pediu 1.500 euros pelo serviço, recusou o valor.

A testemunha acabou por aceitar os 1.500 euros depois de "pressionado" pela arguida de que iria contar aos seus colegas da CP que tinha ficado a dever dinheiro.

A arguida começou a ser julgada esta segunda-feira, sendo acusada de um crime continuado de abuso de poder, um crime de corrupção passiva, um crime de extorsão, um crime de concussão (funcionário público que no exercício das suas funções recebe vantagem patrimonial que lhe não seja devida) e cinco crimes de tráfico de influência.

A ex-funcionária, natural da Alemanha mas a residir em Eiras, Coimbra, terá cometido os alegados crimes a partir de "pelo menos 2011", aproveitando-se do contacto direto com utentes do Centro Hospitalar de Coimbra, "muitos de fraca condição socioeconómica", refere o Ministério Público.

No despacho de acusação, lê-se que a arguida alegadamente propunha os seus serviços na instrução "dos diversos pedidos" que os utentes pretendiam apresentar à Segurança Social (SS), mediante um pagamento, havendo casos de 100 até 1.500 euros.