O chefe do Estado-Maior do Exército reconheceu que a morte de dois instruendos no curso de Comandos em setembro passado ainda provoca "ondas de choque" mas defendeu que aquela força é "insubstituível e inquestionável".

Intervindo na cerimónia que assinalou os 55 anos da criação do regimento de Comandos, o general Rovisco Duarte assinalou o "elevado significado" do dia para aquela tropa especial, mas frisou que este ano "é marcado pelas repercussões" do falecimento de dois instruendos no 127.º curso, acontecimentos que se refletiram "com dramatismo" no Exército e na sociedade civil.

Tratou-se de um facto relevantíssimo, cujas ondas de choque ainda hoje se fazem sentir", admitiu, no seu discurso perante as tropas, na serra da Carregueira, Sintra.

A morte dos formandos Hugo Abreu e Dylan Silva, durante o 127.º curso e as suas repercussões internas e na sociedade civil pôs "de alguma forma à prova, em determinados momentos, a coesão e a disciplina militar bem como a competência, integridade e o sentido de responsabilidade de todos os envolvidos".

Desde o primeiro instante, o comando do Exército deixou claro que a tropa Comando, enquanto elemento significativo de projeção de força, a par da tropa paraquedistas e das tropas de Operações Especiais era inquestionável e insubstituível, pelo que se tornava necessário assegurar que sob todo o sob todo e qualquer angulo de análise crítica, a mesma fosse inatacável", declarou.

Nove meses depois do falecimento dos dois instruendos, mortes que estão a ser investigadas pelas instâncias judiciais, havendo 19 arguidos no processo, Rovisco Duarte considerou que ao nível do Exército foi percorrido "um caminho que não tem sido fácil mas que deu credibilidade" à instituição.

Rovisco Duarte destacou que em agosto próximo partirá o segundo contingente nacional para a República Centro Africana, composto, tal como o primeiro contingente, por maioria de militares da tropa Comando.

O general CEME aludiu ainda à retração do contingente no teatro de operações do Kosovo, enaltecendo a "serenidade e eficácia" com que foi feita, ao fim de quase 20 anos envolvendo um total de 6.500 militares.

Rovisco Duarte dirigiu-se em particular aos formadores do 128.º curso, que terminará em meados de julho com 14 dos iniciais 57 instruendos, ou seja, 43 desistências, apenas duas por recomendação médica.

Enalteço os trabalhos desenvolvidos pelos Comandos, os quais evidenciaram capacidade de evolução e adaptação. Deixo uma palavra de confiança aos formadores do 128.º curso de Comandos que, não obstante a permanente pressão, se tem dedicado às tarefas de formação", disse.

Antes, o comandante do regimento, coronel Pita de Amorim, evocou também os "trágicos acontecimentos ocorridos" no 127.º curso, lembrando os dois formandos que morreram em setembro durante a formação, afirmando que tinham o "sonho de serem Comandos" e cuja memória deve ser "honrada e perpetuada".

Estamos abertos ao permanente escrutínio dos portugueses que servimos mas não aceitamos a indignidade nem o desrespeito, nem a desobediência pelas regras da disciplina e da honra e não esquecemos que a condenação prévia e em praça pública de alguém inocente constitui o absoluto da ofensa à dignidade da pessoa humana", disse.

Quanto às alterações introduzidas ao 128.º curso visando mais segurança para os formandos, o comandante do Regimento advertiu que "apesar de todas as evoluções presentes e futuras" deve-se estar "ciente de que o risco de transformar cidadãos comuns em combatentes de elite sempre existiu, sendo indissociável da condição militar".

O ex-Presidente da República general Ramalho Eanes, o general Rocha Vieira, ex-governador de Macau, e os generais Pinto Ramalho e Carlos Jerónimo marcaram presença na cerimónia militar, que terminou com a imposição de medalhas a alguns elementos dos Comandos.