Professores de vários politécnicos contestaram esta quarta-feira no parlamento a proposta que permite a estas instituições decidir se os exames nacionais contam como prova de acesso aos seus cursos, dizendo que a ideia partiu, afinal, do Ministério da Educação.

Os professores pediram uma audiência aos deputados da comissão parlamentar de Educação, Ciência e Cultura depois de o Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos (CCISP) ter aprovado, em fevereiro, uma proposta que permitirá aos politécnicos eliminar a obrigatoriedade de os exames serem prova de acesso aos cursos.

Na altura, os institutos de Lisboa, Porto, Coimbra e Leiria votaram contra a proposta e uns dias mais tarde os politécnicos de Lisboa, Porto e Coimbra suspenderam a participação no CCISP.

Esta quarta-feira, os deputados foram informados de que nem alunos nem docentes estão satisfeitos com a proposta e que, mesmo «nas escolas que votaram a favor da medida, os professores estão contra», segundo Paula Viana, do Instituto Politécnico do Porto (IPP).

Uma afirmação corroborada pelos outros seis docentes dos politécnicos do Porto, Lisboa, Castelo Branco e Aveiro, que alertaram para o perigo de desvalorização e desqualificação do ensino politécnico caso a proposta avance.

«Ontem, por exemplo, recebi um telefonema de Bragança a dizer que não sabiam de nada. Isto é preocupante», acrescentou a docente do IPP, Cristina Matos.

À Lusa, o professor José Matos, do Politécnico do Porto, afirmou que o «assunto nunca foi levado a discussão a nenhum órgão de gestão das escolas».

Apesar de a medida ter sido anunciada como partindo do CCISP, os professores disseram esta quarta-feira que já tinham ouvido essa possibilidade há mais de um mês por parte do secretário de Estado do Ensino Superior, atribuindo a autoria da ideia ao Ministério da Educação e Ciência (MEC).

«Numa reunião com o secretário de Estado ele falou nessa ideia como sendo capaz de atrair mais de dois mil alunos para o Politécnico. Como se isso resolvesse algum problema», disse Luis Abreu, professor em Aveiro, acrescentando que os docentes deste instituto reúnem-se «para decidir que posição tomar na próxima reunião do CCISP».

No final da audição e em declarações à Lusa, os docentes disseram que o próprio presidente do CCISP lhes tinha dito que se tratava de uma contra-proposta a uma proposta do secretário de Estado.

A professora Cristina Matos lembrou que caso a medida avance tal significará a «desvalorização dos diplomas dos alunos», que já se manifestaram dizendo que «não querem ser alunos de segunda».

«Queremos impedir a desqualificação do ensino superior técnico, queríamos que o problema fosse bem pensado e não fosse apenas alvo de ações cirúrgicas e queremos ser avaliados pela qualidade», defendeu a docente do IPL, explicando que a qualidade pode ser medida tendo em conta a empregabilidade dos estudantes, o desempenho dos alunos nas suas profissões e a qualidade do corpo docente.

A deputada comunista Rita Rato lembrou que «pelo sexto ano consecutivo há menos alunos a candidatarem-se ao ensino superior» e defendeu que este tipo de medidas não conseguirão contrariar esta tendência, contestando assim a justificação dada pelo presidente do CCISP para a proposta.

Também o deputado socialista, Rui Duarte, defendeu que a diferenciação entre os sistemas de ensino superior «deve ser feita pelas missões das instituições e não pelos critérios de acesso».

Pelo lado do CDS, o deputado Michael Seufert considerou que a medida «vai no sentido errado», apesar de não se opor a que a decisão seja tomada pelos politécnicos, tal como proposto pelo CCISP.