Um antigo espião na Venezuela confessou hoje, no tribunal de Aveiro, ter vendido cartas de condução daquele país que conseguia obter de forma fraudulenta e que depois trocava por documentos portugueses, devido a dificuldades económicas.

«Senti-me com falta de recursos económicos e isso foi uma tentação para mim», disse o arguido, durante a primeira sessão do julgamento.

O homem de 69 anos - que trabalhou na Direção dos Serviços de Inteligência e Prevenção da Venezuela, onde atingiu o cargo de comissário - está a ser julgado por dez crimes de falsificação de documento.

Perante o coletivo de juízes, o sexagenário confessou os factos de que está acusado, afirmando estar «muito arrependido».

O arguido esclareceu ainda que todos os documentos usados para obter as cartas eram «fabricados» na Venezuela, com a ajuda de um «contacto» que tinha em Caracas e de funcionários públicos «corruptos» daquele país.

Além do ex-espião, o caso envolve mais dez arguidos (oito homens e duas mulheres), que terão comprado as cartas de condução falsas e que respondem por crimes de falsificação de documento e de condução sem carta.

Destes, apenas seis estiveram presentes na primeira sessão do julgamento e aceitaram prestar declarações, tendo todos eles admitido que compraram as cartas, mas desconheciam que as mesmas eram obtidas de forma ilegal.

Um dos compradores chegou a dizer que recorreu aos serviços do principal arguido, porque andava «muito desanimado», após ter reprovado oito vezes no exame de código.

Nascido em Portugal, o ex-espião emigrou aos 17 anos para a Venezuela, onde permaneceu durante cerca de 40 anos, tendo adquirido a dupla nacionalidade.

Após se reformar dos serviços secretos venezuelanos, o sexagenário regressou em definitivo a Portugal e instalou-se no concelho de Oliveira do Bairro, dedicando-se à atividade de agente de documentação.

Segundo a acusação do Ministério Público, pelo menos a partir de 2004, o antigo espião passou a fabricar cartas de condução supostamente emitidas pelas autoridades venezuelanas com vista à troca por licenças de condução portuguesas.

Para instruir o requerimento a pedir a troca daquelas cartas, que seria entregue nos serviços de viação nacionais, o arguido forjou ainda cédulas de identidade, certificados de autenticidade de dados e bilhetes de avião, supostamente comprados via internet.

O suspeito vendia todos estes documentos por quantias que variavam entre os 800 e 2.000 euros a indivíduos que tinham dificuldade em passar nas provas teóricas e práticas para obtenção de carta de condução de veículos automóveis.

A trama foi descoberta pela Polícia Judiciária de Aveiro que deteve o principal arguido em fevereiro de 2009.