O presidente da Cáritas Portuguesa defendeu hoje que a justiça social «está ainda muito longe de ser posta em prática» e que, para ser aplicada, «tem que pôr em causa interesses instalados».

«A justiça está ainda muito longe de ser posta em prática e basta verificar o aumento das desigualdades sociais que grassa pelo mundo e que se tem vindo a acentuar em Portugal», disse Eugénio Fonseca, que falava à Lusa a propósito do Dia Mundial da Justiça Social, que se assinala na quinta-feira.

Para Eugénio Fonseca, a falta de justiça tem como «grande consequência» as pessoas perderem o acesso de «forma igual» a oportunidades, que, «por direito alienável, deveriam ter e que fazem parte da sua subsistência e do respeito que lhes é devido pela sua dignidade».

Mas, sublinhou, «a justiça para ser implementada tem que pôr em causa interesses instalados e nem sempre há quem esteja motivado a mexer nesses interesses».

«A justiça é dar oportunidade a que todos acedam aos seus direitos em paridade de circunstâncias e não dar mais privilégios a uns do que a outros», lembrou.

Mas, na sua opinião, tem faltado «vontade efetiva» para que possam ser criados «mais critérios de justiça social».

Para serem criados, tem de fazer-se «uma opção honesta, séria, decidida e sem medo de grupos que estejam instalados, que defendem os seus interesses, muitas vezes corporativos».

Eugénio Fonseca advertiu que a «injustiça gera sentimentos de revolta interiores» nas pessoas, que vivem em sofrimento por falta de acesso a um emprego, à alimentação, à habitação.

Sofrem uma «revolta contida» por verem que «alguns são sobrecarregados com medidas que estão fora da justiça social», enquanto outros grupos, com quem também deviam ser «partilhados esses sacrifícios», ficam de fora.

No entanto, os portugueses são «um povo que se resigna perante essas condições», acrescentou.

Essa resignação, segundo Eugénio Fonseca, leva a que, muitas vezes, «a revolta perante as injustiças se faça mais no íntimo de cada um», o que pode gerar «doenças do foro mental», mas também situações de violência doméstica ou «comportamentos antissociais mais radicais», como, por exemplo, a prática de assaltos.

Sobre o que é imperativo fazer para uma maior justiça social, o responsável afirmou que é necessário «uma consciência maior no sentido do bem comum», mas, «para já», deve haver um conjunto de «políticas em que se pratique uma redistribuição mais justa da riqueza que é produzida».

Eugénio Fonseca disse estar «satisfeito por ver que o país está a sair das agruras em que estava em termos de recessão», mas não esquece que esta saída «foi feita, sobretudo, à custa dos sacrifícios de quem já fazia muitos sacrifícios para viver».

«É bom que nos alegremos por Portugal estar a sair finalmente de uma situação tão difícil (...), mas também é preciso dizer que deixou pelo caminho muita gente sofrida», comentou.

Agora, é preciso «olhar de forma especialíssima para essas pessoas a ver se ainda as recuperamos em termos daquilo que são as condições de vida que Portugal quer criar ao libertar-se das condições muito negativas em que vivia».

Para assinalar a efeméride, Eugénio Fonseca deixa uma mensagem: «Sem maior justiça social, jamais teremos desenvolvimento humano e nunca teremos coesão social e harmonia social».