Um terço dos alunos universitários ouvidos num inquérito defendeu a «suavização» das praxes e quase 30 por cento que se mantenham como estão, com uma minoria a defender o fim da tradição.

Os dados fazem parte de um estudo de 2012 que seguiu meia centena de alunos de primeiro ano da Universidade, conduzido por Diana Dias, investigadora do Centro de Investigação de Políticas do Ensino Superior e professora da Universidade Europeia.

No sábado assinala-se os dois meses da morte de seis estudantes universitários (Universidade Lusófona) de um grupo de sete numa praia dos arredores de Lisboa (Meco). Os jovens faziam parte da comissão de praxes e a questão e as circunstâncias da morte continuam a suscitar polémica, com o fim das praxes académicas a ser também debatido.

«Acho que (a praxe) devia de ser mais suave, mais numa de ajuda e menos numa de autoridade», disse uma das alunas entrevistadas citada pelo estudo, enquanto um aluno sugere que sejam banidas das praxes «as brincadeiras parvas» e as humilhações, e outro ainda que as praxes sem mais divertidas.

Em termos gerais os alunos percebem a praxe como pertinente e «fonte privilegiada de informação», e descrevem-na como fonte de emoções positivas (especialmente diversão e orgulho) e negativas (vergonha, tensão, humilhação e medo).

«A praxe assume tal importância enquanto ritual de iniciação no Ensino Superior que os estudantes assumem-na como quase inevitável. Na verdade, quer rejeitando, quer participando nela, nenhum estudante fica indiferente à praxe», diz o estudo de Diana Dias.

Para alguns dos jovens, afirma-se, a praxe foi «o momento exemplar de transição», com quase metade dos entrevistados a considerar a praxe como forma de promoção de relações de amizade, ainda que alguns tenham duvidado dessa eficácia, considerando antes que a praxe é uma forma de os mais velhos se divertirem e de se vingarem do que antes lhe tinham feito.

«A praxe é também uma catarse, tem funções para quem praxa», admite a investigadora em declarações à Lusa, salientando o caráter de ritual de passagem da mesma, simbolizando o momento em que o caloiro se torna verdadeiramente estudante.

«É claramente um rito de transição, com um claro objetivo de elevação de estatuto, que "transforma" o caloiro num estudante do Ensino Superior de pleno direito», diz o estudo. E contrapõe a autora que a praxe também pode levar à coesão e criação de vínculos entre os que são «oprimidos», não havendo na Universidade outra cerimónia com o mesmo impacto.

Por isso a professora defende que não se deve de «diabolizar» a praxe desde que decorra sem exageros e sem «limites ultrapassados que se têm visto».

«A praxe é um catalisador positivo da integração do caloiro, mesmo quando vista de forma mais ansiosa ou perturbadora. É muitas vezes o vestir de uma camisola, pertencer a um grupo», disse Diana Dias, acrescentando não ser por acaso que os jovens escolhem primeiro instituições que proporcionem experiência académica, com rituais e tradições.

Mas, frisa, faz sentido acabar com práticas abusivas que põem em causa a dignidade humana. Quando tal acontece, quando as regras não são cumpridas, «não é de praxe que se fala».