Um estudo veio demonstrar pela primeira vez que existe uma relação comprovada entre os fatores genéticos e uma maior propensão para desenvolver hipertensão arterial e uma maior sensibilidade ao sal.

O estudo, que é hoje apresentado no 8.º Congresso Português de Hipertensão, comprova ainda que a prevalência de hipertensão na população portuguesa é de 42,2% e que 57,4% dos hipertensos não estão controlados.

Realizado pela Sociedade Portuguesa de Hipertensão (SPH), o estudo consistiu em analisar 16 variantes genéticas de 12 genes, retirados de amostras do estudo PHYSA (Portuguese Hypertension and Salt Study), apresentado no ano passado.

Segundo o presidente da SPH, Fernando Pinto, estes resultados são ainda preliminares porque não envolvem a amostra global do estudo PHYSA: foram estudados 1.852 amostras de um total de 3.720, «cerca de metade, o que já permite afirmar com firmeza e clareza as conclusões a que chegámos».

«Este estudo tem várias características que o tornam único: é a maior amostra em Portugal e é representativa da população portuguesa [Portugal Continental], doentes e não doentes; por outro lado mostra que, de um conjunto grande de genes estudados, em alguns em que a relação não era clara, há duas variantes desses genes relacionados diretamente com a probabilidade de desenvolver hipertensão», afirmou à Lusa.

Ou seja, «as pessoas que têm estes genes têm maior probabilidade do que o resto da população» de desenvolver a doença, sublinhou.

A primeira análise do estudo revela que existem duas variantes genéticas associadas a um risco aumentado de hipertensão (de 22% e 16%), o que significa que, quem possuir uma destas duas variantes, tem 22% ou 16% de maior probabilidade de vir a desenvolver a doença.

Por outro lado, o estudo indica também que existe uma outra variante genética associada a um risco diminuído de hipertensão, que diminui em 25% a propensão para a hipertensão.

Existem ainda duas variantes genéticas associadas ao aumento da sensibilidade ao sódio (sal), a maior causa de desenvolvimento de hipertensão.

«Estas pessoas, mesmo que comam menos sal, têm maior probabilidade» de ter hipertensão, explicou, salientando que estes genes não se excluem mutuamente, podendo coexistir um ou dois genes de cada tipo, na mesma pessoa, aumentando ainda mais a sua vulnerabilidade.

O estudo indicou ainda a existência de outras duas variantes genéticas associadas a um risco aumentado de doenças cardiovasculares e diabetes (de 23% e 19%), acrescentou o presidente da SPH.

«Estes resultados permitem abrir mais uma porta e ficar com a noção de apesar de o principal fator de risco ser um estilo de vida desapropriado ¿ com má alimentação, falta de exercício físico e excesso de peso - algumas pessoas vão ter sempre maior probabilidade de desenvolver a doença», esclareceu Fernando Pinto.

Este novo conhecimento aponta para a necessidade de estas pessoas terem um acompanhamento mais apertado e mais cuidados de saúde, como medir a pressão arterial, retirar o sal da alimentação, substituindo-o por condimentos, e adotar uma prática regular de exercício físico.

«Quando houver historial na família, se calhar essas pessoas vão ter indicação para fazer o diagnóstico genético, para poderem prevenir que o aparecimento da hipertensão ocorra o mais tardiamente possível», considerou.

Para Fernando Pinto, este estudo é «mais um grande passo na investigação científica e vem mais uma vez mostrar que quando há esforço dos profissionais, sem qualquer apoio financeiro (apenas o esforço da SPH), temos massa cinzenta. A grande qualidade dos investigadores portugueses permite-lhes, com poucos ovos, fazer muitas omeletes».