A bióloga portuguesa Ana Sofia Reboleira descobriu que uma espécie de milpés única em Portugal tece em grutas uma complexa estrutura de lama e seda cuja origem misteriosa os cientistas tentavam desvendar há mais de um século.

As “estranhas estruturas circulares com um pequeno orifício” eram encontradas em grutas portuguesas, mas, segundo Sofia Reboleira, “durante mais de um século ninguém sabia quem as produzia”.

Trata-se, de acordo com a cientista, de “um tipo de câmara muda completamente nova no mundo animal, produzida por uma espécie de milpés (o Lusitanipus alternans) que só existe nas grutas do centro de Portugal”, e que foi reencontrada por Sofia Reboleira em 2006, mais de um século depois de ter sido descrita.

“Descobrimos que estes milpés constroem estas estruturas para mudar, um processo fisiológico no qual se libertam do exoesqueleto [cobertura do corpo] antigo emergindo com um novo exoesqueleto maior e mais flexível que permite ao animal crescer”, explicou à agência Lusa.

Aparentemente formada por lama das grutas, esta é ”uma complexa estrutura arquitetónica composta por lama processada pelas peças bocais do animal e intrincada por finíssimos filamentos de seda, mil vezes mais pequenos do que um milímetro”, já que, acrescentou, “os milpés, tal como as aranhas, produzem seda através de umas fieiras que têm no extremo posterior do seu corpo”.

A investigação revelou que os milpés “demoram cinco dias” a construir a estrutura onde “permanecem mais de um mês a salvo dos predadores, até que todo o processo de muda esteja completo e possam caminhar de novo no exterior, deixando a câmara através de um pequeno orifício”.

A mudança do esqueleto é “uma altura crítica na vida do animal, que fica num estado letárgico e completamente vulnerável aos predadores”. Para a bióloga, isto evidencia a importância daquelas construções de “grande resistência”.

A descoberta decorre de uma investigação desenvolvida no Museu de História Natural da Dinamarca, parte da Universidade de Copenhaga e publicada na quinta-feira na revista científica Arthropod Struture and Development.

“Tivemos mais de 30 indivíduos em laboratório durante um ano, com condições de temperatura controlada e em obscuridade total, tal como nas grutas, que foram observados regularmente”, o que permitiu verificar pela primeira vez “numa ordem inteira de milpés como ocorre a muda de um juvenil para um indivíduo adulto, estudando em detalhe este processo e a formação das estruturas”.

A investigação é resultado de um projeto liderado pela cientista portuguesa e financiado pelo Conselho Dinamarquês para a Investigação Independente e conta com a colaboração do professor Henrik Enghoff, da mesma instituição.

O objetivo era estudar a transmissão de fungos que só crescem naqueles animais, mas acabou por resultar numa “descoberta notável”, quando ainda “são raríssimos os estudos sobre o comportamento e o desenvolvimento dos invertebrados que habitam o meio subterrâneo”, ressalvou.

Isto porque “é muito difícil reproduzir as condições naturais em laboratório”, tal como “é difícil observá-los de forma sistemática no seu habitat”, acrescentou a bióloga.

No seu entender, as características biológicas, ecológicas e sobretudo a distribuição geográfica confinada às cavernas do centro de Portugal “são de tal forma relevantes que ditam a urgência da criação de medidas de proteção para esta espécie em si e para os habitats subterrâneos em geral”.

Nos últimos anos a investigadora foi responsável pela descoberta e descrição de 28 novas espécies para a ciência de grutas em Portugal, “um património nacional único que, ao contrário de outros países europeus, se encontra completamente desprotegido”.

Os milpés, conhecidos em Portugal como ‘maria-café’, pertencem à classe dos invertebrados e têm corpos cilíndricos e muitas patas, fazendo por vezes lembrar, à primeira vista, as centopeias.