Um número indeterminado de jovens portugueses, que pode chegar às várias centenas, está em risco de deportação depois de Donald Trump ter decidido terminar com um programa que protege pessoas levadas para os EUA de forma ilegal em crianças.

Os EUA não divulgam o número de beneficiários por país do DACA - Deferred Action for Childhood Arrivals (Ação Diferida para Imigração Infantil), mas organizações que prestam apoio a imigrantes portugueses em Rhode Island, Massachusetts, Nova Iorque, Nova Jérsia e Califórnia garantiram à Lusa que foi um programa muito popular nas suas comunidades.

Só no meu estado, acho que estamos a falar de centenas de pessoas", disse à Lusa Helena da Silva Hughes, diretora do Centro de Apoio ao Imigrante de New Bedford, em Massachusetts, no início do ano.

O programa, que foi lançado em 2012 por Barack Obama, permite a jovens que foram levados para os EUA em criança de forma ilegal receberem proteção contra deportação, autorização de trabalho e número de segurança social.

O procurador-geral dos EUA, Jeff Sessions, anunciou hoje o fim do programa, que será abandonado de forma gradual e expira a 5 de março do próximo ano. No Twitter, o Presidente norte-americano, Donald Trump, disse que o Congresso devia agora fazer "o seu trabalho".

Uma lei para proteger estes jovens tem apoio nos dois partidos, tanto na Câmara dos Representantes, como no Senado, mas enfrenta forte oposição de alguns republicanos, que consideram a iniciativa uma amnistia, e uma agenda legislativa já muito preenchida, com a reforma fiscal, a aprovação de um novo orçamento e um novo limite de endividamento do país.

Apesar de a comunidade portuguesa ser documentada na sua grande maioria, Helena da Silva Hughes disse que "nos últimos anos muitos imigrantes, sobretudo dos Açores, foram juntar-se a familiares que já estavam" nos Estados Unidos e que alguns dos mais jovens encontraram proteção nesta ordem executiva.

Moses Apsan, que é dono de uma das empresas de advocacia especializadas em imigração mais populares do estado de Nova Jérsia, calcula ter ajudado mais de 100 portugueses a candidatarem-se ao programa.

Nestes anos, preenchi entre 300 a 400 candidaturas. Cerca de metade eram de cidadãos portugueses", explicou o advogado à Lusa.

No mesmo estado, na cidade de Newark, Ana Oliveira também prestou apoio a vários portugueses que se candidataram ao programa e confirmou que "é um assunto que afeta diretamente os portugueses."

A comunidade portuguesa está estabelecida e por isso a maioria acha que este tema não lhes diz respeito, mas é um problema que pode atingir muitas famílias portuguesas", garantiu a consultora jurídica.

Bela Ferreira, diretora-executiva da Portuguese Organization for Social Services and Opportunities (POSSO), com sede em Santa Clara, na Califórnia, disse que a sua organização "tem conhecimento de jovens protegidos pelo programa", mas que é impossível indicar um número.

A nossa comunidade está muito dispersa pelo vale [de São Joaquim], por isso não sabemos a dimensão desta realidade. Mas sabemos que há bastantes imigrantes recentes, vindos nos últimos 15 anos, e que uma parte deles se encaixa neste perfil", explicou a líder comunitária.

O estado norte-americano calcula que 2,1 milhões de pessoas possam beneficiar do programa, que não inclui pessoas com mais de 31 anos ou que tenham chegado depois de 2007.

Neste momento, perto de 800 mil pessoas usufruem das suas proteções, o que lhes permitiu ir para a universidade, trabalhar de forma legal, visitar o país de origem e ter carta de condução.

As únicas diferenças destas pessoas para um cidadão norte-americano é que não têm passaporte, não podem votar e podem ser deportados se cometerem algum crime.

Em 2001, foi apresentada uma proposta de lei bipartidária chamada "Dream Act" (Development, Relief and Education for Alien Minors) que tornava efetiva a proteção a estes jovens, mas a iniciativa não foi aprovada.

Desde essa altura que estes jovens se organizam num movimento espalhado por todo o país e se autointitulam "dreamers" (sonhadores).

Fonte da embaixada de Portugal em Washington disse à Lusa, no início do ano, que "a comunidade portuguesa e luso-americana é um comunidade bem integrada e, na sua larguíssima maioria, de segunda e terceira geração" e garantiu que a rede diplomática "continua a seguir com o máximo cuidado e atenção quaisquer desenvolvimentos que possam afetar cidadãos portugueses".

Obama lamenta "sombra", "dreamers" prometem luta

O ex-presidente norte-americano Barack Obama lamentou, esta terça-feira, a “sombra” lançada pelo seu sucessor, Donald Trump, sobre cerca de 800 mil jovens indocumentados, ao acabar com o programa DACA, que os protegia da deportação, considerando a decisão “cruel” e “errada”.

Uma sombra foi lançada sobre alguns dos nossos melhores e mais brilhantes jovens. Apontar a estes jovens é errado (…) e é cruel. Trata-se de jovens que cresceram na América, crianças que estudaram nas nossas escolas, jovens adultos que iniciaram a sua vida profissional, patriotas comprometidos com o respeito da nossa bandeira”, afirmou Barack Obama, através de comunicado.

Os “Sonhadores”, beneficiários do programa migratório, criticaram a “cruel e vergonhosa” decisão do Governo Trump e afirmaram que ninguém lhes “tirará a dignidade”.

Concentrados na praça Lafayette, mesmo em frente à porta da Casa Branca, mais de meia centena de “Dreamers” e ativistas pelos direitos cívicos prometeram continuar a luta para exigir do Governo uma solução para a sua irregular situação migratória.

Hoje de manhã, o procurador-geral, Jeff Sessions, anunciou oficialmente a decisão de eliminar o programa , em vigor desde 2012, embora acrescentando que a suspensão da sua aplicação só se tornará efetiva daqui a seis meses, para obrigar o Congresso a encontrar uma alternativa.