A falta de dinheiro está a levar cada vez mais portugueses a abdicar de medicamentos receitados pelos médicos. As farmácias entendem o problema e, muitas vezes, cedem os remédios a troco da promessa de pagamento no final do mês, refere a Lusa.

«Destes medicamentos qual deles me faz mais falta?» é uma pergunta que Fátima Brito de Sá ouve diariamente na sua farmácia do Bairro Alto, Lisboa, muito frequentada por idosos.

A directora técnica da farmácia contou que há idosos com «doenças agudas e falta de ar» que não têm dinheiro para a medicação.

«Eu acabo por lhes dar os medicamentos», contou, ironizando que «qualquer dia tem de mudar de ramo» porque não consegue dizer «não» quando um idoso diz que não tem dinheiro para um remédio essencial para a sua saúde.

Todos os meses, Carminda de Oliveira, 82 anos, faz contas de cabeça para pagar a conta na farmácia. Os 200 euros da reforma mal chegam para as despesas do dia-a-dia.

«O que vale é que a farmácia me deixa pagar aos bocadinhos», disse a idosa, que precisa de tomar diariamente medicação para o colesterol e hipertensão.

Para facilitar o acesso aos medicamentos, muitos clientes idosos daquela farmácia no Bairro Alto pagam no final do mês, quando recebem a pensão. Mas, mesmo assim, Fátima Brito diz que tem «dívidas muito grandes para uma farmácia» e numa altura em que se nota «uma acentuada diminuição na compra de medicamentos».

O mesmo se passa numa farmácia da Avenida Almirante Reis, em Lisboa, segundo a farmacêutica Helena Machado: «Há pessoas que entram, perguntam o preço, hesitam e acabam por não comprar. Muitas vezes, são medicamentos com preços de dois e três euros».

Situada numa zona de Lisboa com muita população idosa, esta farmácia funciona muito com o pagamento no final do mês. Os utentes vão pagando sempre, apesar de haver «casos menos felizes», confessou a farmacêutica.

Numa farmácia da Rua Prior do Crato, em Alcântara, Lídia Cerqueira disse que há muitos idosos que estão semanas sem tomar medicamentos à espera que chegue o dinheiro da reforma ou então aviam apenas parte da receita.

«Nós colocamos os medicamentos receitados pelo médico em cima do balcão e eles escolhem os que querem levar», disse a técnica, adiantando que a farmácia funciona muito com o crédito.

«São pessoas muito honestas», frisou, revelando que os idosos pagam sempre as suas contas. «O pior é os mais novos, que muitas vezes se queimam por uma ninharia».

Os «calotes» têm aumentado com a crise, segundo o director técnico de uma farmácia em Campo de Ourique (Lisboa), Miguel Paiva.

«Estou há 13 anos nesta farmácia. Nos últimos dois anos tive mais pessoas a não pagar as contas do que nos restantes onze», assegura, acrescentando que também «trabalha muito com pagamentos no final do mês».