Três anos depois da morte de José Saramago, Pilar del Rio continua de luto, apenas com um colar de pérolas brancas a contrastar com o negro do fato (saia e casaco). Foi assim que a mulher do prémio Nobel da Literatura apareceu no Centro Cultural San Martin, em Buenos Aires, para uma homenagem ao «escritor Saramago» e ao «homem José».

«O homem José morreu, mas o escritor Saramago continua vivo, nas suas palavras, nos seus livros», disse Pilar de Rio, numa sala pequena, intimista, onde o Grupo de comunicação social Clarín realizou o encontro - tão longe dos eventos megalómanos que Portugal nos habituou.

Aí, cerca de uma centena de pessoas a ouviu, admirou, rio e chorou com as memórias da agora presidente da Fundação José Saramago, situada na Casa dos Bicos, em Lisboa.

Pilar falou do «poder da literatura» que une não só povos e situações - «muitos comparam a actual situação no Egipto, ou as crises na Argentina em 2001 e no México, com o Ensaio sobre a Cegueira», sublinhou. Um poder que uniu uma aldeia na escolha da melhor oliveira que guarda agora as cinzas do escritor, no Campo das Cebolas, em Lisboa.

E, também, um poder que obriga a quem o desfruta a participar na construção do mundo em que vivemos.

«Saramago olhava em seu redor e não gostava do que via. Além de um escritor, ele era um homem atento ao que se passava e activo civicamente. Para Saramago, era imoral fugir à obrigação de mudar o mundo».

«Depois da morte só há memórias, nada mais»

Mas, além de Saramago, Pilar falou também de José. Muitas vezes de forma cómica e alegre, outras de uma seriedade que impunha um silêncio gélido na sala.

«Depois da morte não há diálogo, não. Apenas memórias, nada mais. A morte é muito dura», disse, respondendo a uma pergunta da plateia.

E entramos numa zona íntima, demasiado íntima talvez, da vida de Pilar del Rio, acostumada já a partilhar algumas brechas da sua intimidade, depois do documentário «José & Pilar», do realizador português Miguel Gonçalves Mendes. Um projecto que começou por se tratar de «apenas uma semana de filmagens» e que «terminou em quatro anos de convivência», como contou Miguel Gonçalves Mendes, soltando uma gargalhada geral da plateia.

«A cada dia o Miguel aproximava-se um pouco mais. Queria filmar o José a fazer a barba; a preparar o pequeno-almoço, como ele gostava de fazer, numa espécie de ritual. Eu dizia sempre que não», partilhava Pilar, a rir.

No final, também a equipa de rodagem fez parte da «família Lanzarote», aceitando o alojamento e a comida oferecida por Saramago e Pilar, à falta de dinheiro para pagar as comodidades de um hotel.

Agora, Miguel Gonçalves Mendes prepara-se para filmar a obra de José Saramago «Evangelho segundo Jesus Cristo», que deverá estrear em 2015.

O encontro também contou com a presença de Claudia Piñeiro, vencedora do prémio Novela Clarín, onde José Saramago era um dos elementos do júri. Claudia recordou o momento em que recebeu o prémio das mãos do escritor português, em 2005.