Gonçalo, 15 anos, indiciado por um crime de terrorismo. Três homicídios na forma tentada, posse ilegal de arma. É filho único de um casal de classe média. O pai é técnico de radiologia, a mãe assistente num consultório clínico. Bom aluno aos 15 anos frequentava o 11º ano e estudava na Stuart Carvalhais, uma das escolas mais pacatas de Massamá, nos arredores de Lisboa, há menos de duas semanas apanhou todos de surpresa. Ninguém imaginava que aquele rapaz aparentemente pacato pudesse atacar com uma faca dois colegas e uma auxiliar de educação.

«Aconteceu que eu estava no atrium de baixo e acontece que vejo vir um grupo de meninos pela escada abaixo muito aflitos não sabendo o que se passava nem tive tempo de procurar porque eles passaram rapidamente, a correr numa brutidade, a correr tão rápido que eu não tive tempo sequer de procurar o que é que se passava e o rapaz que me agrediu era o último que vinha na escada e eu vejo-o vir de faca na mão. Ao mesmo tempo chegou-se ao pé de mim e apenas espetou-me uma faca, a primeira facada na cabeça e outra no pescoço», contou Nazaré Lopes.

14 de Outubro. Pouco faltava para as 16 horas, no pavilhão G, o mais afastado do portão principal, a aula de português do 11º ano já ia no segundo tempo quando Gonçalo abriu a porta e atirou uma bomba de fumo para dentro.

«Uma bomba de fumo tinha fumo verde ele lançou a bomba e nesse momento ele voltou a fechar a porta, o fumo instalou-se na sala e a seguir depois de o fumo se ter instalado ele abriu e entrou como se fosse assim um fantasma com uma faca na mão e foi aí que ele começou a esfaquear os colegas. Mas direito a alguém especificamente ou quem lhe apareceu à frente, não, não ele foi a quem estava mais próximo dele neste caso as pessoas que estavam encostadas à parede e a ultima carteira da esquerda. Esfaqueou um colega nosso no peito e outro passou só assim de raspão aqui na cintura», contou um dos alunos da turma.

Um aluno saltou pela janela do primeiro andar, outros voaram pelas escadas abaixo. O relógio marcava as 16:10 quando Nazaré Lopes, 58 anos, acreditou que tinha chegado o fim, mas ainda conseguiu pedir ajuda a uma colega.



«Eu só disse Noémia acode-me, Noémia acode-me e diz para não deixarem fugir porque este miúdo se calhar matou-me. Eu estava. Eu pensava mesmo que ia morrer porque o sangue era muito, muito e o sítio que era eu sabia que no pescoço é muito perigoso».



Descontrolado, Gonçalo foge da escola. A polícia apanha-o 100 metros mais à frente, não oferece resistência, para trás já tinha ficado a mochila.

«Quando se lê a seco aquele auto do MP sobre os factos que ocorreram e lê-se que o menor quis matar 60 pessoas, que o menor ia preparado para cometer um genocídio que o menor queria reproduzir o massacre de Columbine e depois começa a pensar que estamos perante um miúdo de 15 anos que não tem qualquer antecedente que levava duas facas de cozinha, dois frascos de álcool e uma ou duas bombas de fumo para a escola que tinha um croqui infantil esboçado e se pensa então este jovem vai matar 60 pessoas com isto? É claro que não, quer dizer, isto é risível», defendeu o advogado, Pedro Proença.

Por estes dias, colegas professores e auxiliares tentam perceber quem é afinal o Gonçalo. Bom aluno, pouco sociável, passava as tardes sozinho em casa, não existia nas redes sociais, garante que os colegas lhe chamavam «queque», «copo de leite», «o nerd da sala». Entrou em depressão e deu sinais evidentes. Nem a escola, nem os pais conseguiram perceber.