O conteúdo das escutas a António Figueiredo, o principal arguido do processo dos Vistos Gold, mostram que Marques Mendes, então conselheiro de Estado, intercedeu pela atribuição de nacionalidade portuguesa a duas cidadãs estrageiras. O comentador político disponibilizou-se mesmo para falar sobre a questão com o então ministro da Economia, António Pires de Lima.
 
De acordo com o jornal Público, a 26 de agosto de 2014, Marques Mendes disse a António Figueiredo, na altura presidente do Instituto do Registo e Notariado (IRN), que gostava de lhe enviar um “emailzinho” sobre um casal que conheceu em Moçambique, para ele “conseguir ver como é que se podia” resolver o problema.
 
Marques Mendes disse ao presidente do IRN que Salimo Abdula é “um tipo de grande prestígio, talvez o maior empresário de Moçambique”, e ainda por cima presidente da Confederação Empresarial da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, que tem sede em Lisboa. E sublinhou que nem a sua “fortíssima ligação a Portugal”, país em que o filho “está a estudar” e onde possui “negócios, casa e contas bancárias”, tinha permitido que a mulher, que tem “descendência de portugueses” conseguisse obter, até então, a nacionalidade portuguesa.
 

“Podemos eventualmente ir pela via da discricionariedade”, sugere António Figueiredo.

 

“Pois. Claro, claro”, responde- lhe Marques Mendes.

 
E como o IRN tinha pedido pediu à mulher do empresário uma declaração do Ministério da Economia. “Se for preciso eu falo com o António Pires de Lima”, disponibiliza-se Marques Mendes.
 
Em declarações ao Público e confrontado com o conteúdo das escutas, Marques Mendes assegura que não houve qualquer cunha. “O caso arrastava-se há mais de um ano sem que os serviços dessem qualquer informação”, justificou, sublinhando que o caso continua por resolver, apesar de “ter condições para ser solucionado face à lei”.
 
Ainda de acordo com o Público, a 17 de outubro de 2014, um mês antes de António Figueiredo ser detido, Marques Mendes pede-lhe para levar ao IRN Geyze Marchesi Diniz, nora do fundador do grupo Pão de Açúcar. “É muito importante, porque eles vão investir muito dinheiro em Portugal”, justifica Marques Mendes no telefonema que fez a António Figueiredo.
 
No mesmo telefonema Marques Mendes aproveitou para interceder pela própria filha, que estava com problemas relacionados com o cartão do cidadão. António Figueiredo pede-lhe para ela ir ter com ele aos serviços.
 
Marques Mendes alega agora que “era uma situação de emergência”, já que a rapariga ia casar e não conseguia fazer a escritura da casa sem resolver o assunto.
 
Não é a primeira vez que o nome de Marques Mendes surge associado ao processo. Pouco depois de rebentar o escândalo, em novembro de 2014, o nome do então conselheiro de Estado apareceu associado a vários dos arguidos presos na Operação Labirinto. Na altura, o antigo líder do PSD negou tudo e que se tinha limitado a solicitar informações sobre o andamento de dois processos.