Esta é uma excelente notícia por parte do Ministério da Éducação”. É desta forma que Carlos Neto, investigador Faculdade de Motricidade Humana, reage à notícia de que os alunos do 1.º Ciclo vão ter menos duas horas e meia de aulas por semana, ou seja, mais tempo para brincar no recreio.

Este investigador, que há muito defende a importância de brincar para as crianças, considera que este tempo pode permitir “mais atividade física e socialização, num recreio mais desafiante, mas também para terem mais prazer de estar na escola”. Até porque, lembrou durante a entrevista que deu na TVI24, “no 1º ciclo os currículos são extensos e intensos e as crianças estão muitas horas nas salas de aulas”.

Apesar desta novidade implicar uma “reorganização do horário diário”, Carlos Neto acredita que “isso não é uma dificuldade na maior parte dos casos”.

Mas o investigador lembra agora que “é preciso saber como se vai usar esse tempo”. “Um recreio tem de ser desafiante, as crianças têm de ter coisas interessantes para fazer”.

E há coisas essenciais. Apostar no que elas gostam: 

“O jogo social, a atividade física, o jogo do faz de conta”. Ou seja, “necessitamos de ter recreios com mais qualidade de estimulação.”

E é por isso que Carlos Neto defende “um modelo de requalificação de espaços de recreio” e, na sua opinião, a tarefa “podia ficar a cargo das Câmaras Municipais”.

Dar tempo para brincar, mas “um tempo de qualidade, que tenha materiais, que tenha espaços adequados, que tenha risco, autonomia suficiente… para que elas possam fazer brincadeiras que tenham a ver com o seu nível de desenvolvimento”.

E para que não fiquem dúvidas quanto ao real valor da brincadeira, Carlos Neto ressalva:

“As crianças que mais brincam no recreio e que mais socialização fazem, também aprendem mais na sala de aula. Ou seja, este tempo maior no recreio pode ter uma contribuição fundamental nas aprendizagens escolares.”

O investigador vai longe e diz que “a dicotomia sala de aula/recreio devia acabar. As escolas deviam assumir que o recreio faz parte da sala de aulas e do processo de aprendizagem”.

Mas não só. O brincar é ainda mais e pode determinar como seremos no futuro. Carlos Neto lembra que “nos últimos 20 anos desapareceram dos recreios quatro ações fundamentais para o desenvolvimento das crianças: pendurar, balançar o corpo, trepar e saltar”. 

“Tiraram as árvores - normalizaram os espaços -, tiraram o material solto, não há hortas, não há areia, não há terra”, explica o investigador. “Falta o risco”, lamenta. Em seguida, lembra que este tempo extra pode ter mais aspetos positivos como, por exemplo, “combater o sedentarismo e uma certa iliteracia físico-motora”.

Considerando que estamos numa época de férias escolares, que nem sempre coincidem com as férias familiares, Carlos Neto defende que esta é “uma boa altura para fazer experiencias diferentes, coisas malucas, pouco habituais. Por exemplo, andar de bicicleta, subir montanhas, nadar no rio, ir para a praia”. 

Ou seja, coisas diferentes da rotina habitual e como “o tempo de férias ficam para sempre na memória”, o investigador diz que é preciso ter isso em mente quando se escolhem Atividades de Tempos Livres para ocupar os mais novos ou colónias de férias. “O contato com a natureza é essencial”.