Estima-se que 44% dos 65,5 milhões de refugiados são vítimas de tortura, e Portugal, como país solidário que é, tem feito esforços para acolher o maior número possível. Lisa Matos, especialista em conceção e implementação de programas de acolhimento de populações refugiadas, e Nuno Félix, da associação “Famílias como as nossas”, estiveram na TVI24 para uma entrevista onde se debateu a maior crise humanitária que o mundo atravessa.

No dia 20 de junho celebrou-se o dia Mundial dos Refugiados que acabou por ser ofuscado pela tragédia dos incêndios que assolaram Portugal, mas a TVI24 não quis deixar passar em branco um tema tão sensível.

No final de 2016, o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) estimava que 1500 refugiados residissem em Portugal, e até ao dia 16 de junho de 2017, foram apresentados em Portugal mais 446 pedidos de proteção internacional.

Apesar destes números representarem uma pequena parte dos 65,5 milhões de refugiados no mundo, Portugal continua a ser o quarto país europeu que mais refugiados acolhe.

De acordo com Lisa Matos, “Portugal é apontado internacionalmente pela ONU e por canais informativos como um exemplo de acolhimento e de abertura.”

Ninguém escolhe ser refugiado, isso é uma coisa que temos que ter em mente. Em Portugal, ao fim destes dois anos de acolhimentos de refugiados, nós temos que começar a pensar nos refugiados como parte do nosso tecido social, e não só como o outro (…) nós devemos olhar para esta crise como a nossa nova realidade. Nós temos que perceber que enquanto cidadãos europeus privilegiados, somos um polo de atração para pessoas que não têm as mesmas liberdades que nós damos como garantidas, que não têm acesso a saúde, a educação, ou a expressarem a sua opinião política. Sendo um polo de atração, nós vamos continuar a receber pessoas que estão a fugir da guerra ou de perseguição política”.

“Nós temos feito um esforço significativo que tem por trás um esforço não só governamental, das instituições, mas também da sociedade civil de integração. Não nos podemos esquecer que os refugiados são pessoas que têm passados muito complicados, muitos deles são sobreviventes de tortura. Há estimativas de que cerca de 44% dos refugiados são sobreviventes de tortura (…) isso quer dizer que nós, enquanto sociedade de acolhimento temos de ter serviços especializados para prestar apoio a pessoas que têm traumas profundíssimos. Temos que respeitar o luto, o luto da perda, a renovação e o choque cultural”, acrescenta.

Em relação ao Dia Mundial dos Refugiados, Lisa Matos defende que “é bom para fazermos uma reflexão".

"O que é que estamos a fazer bem? O que é que podemos melhorar? E temos de trazer os refugiados para a conversa, nós não podemos impor uma política de integração sem ouvirmos as pessoas”, sublinha.

Já Nuno Félix, como voluntário num campo de refugiados, viveu o drama de perto quando embarcou numa viagem sem saber o que o esperava do outro lado.

“Fiz isto para comprovar uma convicção que tinha (…) e de facto são famílias como as nossas”, explica.

Nuno Félix revela que a realidade num campo de refugiados não é muito diferente da que vemos nos filmes.

É muito violento ver nos campos de refugiados a forma como muitas vezes as pessoas são tratadas, a forma como elas chegam aos campos, como são separadas por sexos, como um miúdo de 11 anos pode ser separado da mãe porque já entra na fila dos homens, como chegam crianças com voluntários, que já perderam os seus pais pelo caminho, isso é extraordinariamente duro", realça. 

 

Há crianças que já estão há três ou quatro anos em campos de refugiados sob a ameaça de redes de tráfico humano e pedofilia. Há pessoas que são mortas por redes de tráfico de orgãos, as mulheres são muitas vezes violadas, forçadas a fazê-lo para prosseguirem caminho ou protegerem os filhos. Se cada um de nós estivesse cinco minutos naquela circunstância, a nossa capacidade de empatizar com o outro seria muito maior", remata.

A crise dos refugiados é consequência de uma série de conflitos armados, instabilidade política e social, pobreza e de condições de vida precárias – situações que ocorrem por todo o mundo e para as quais as organizações não têm conseguido encontrar soluções sustentáveis.