A maioria dos estudantes do ensino superior em Portugal admite copiar nos exames. Um estudo da Universidade do Porto revela que são 60,7%. Daqueles que admitiram ter alguma vez recorrido ao copianço, só 2,5% foram apanhados. 

“Em termos de conduta em exame e a cópia propriamente dita, o que nós obtivemos foi que cerca de 61% dos estudantes admitiu já ter copiado em exames no seu percurso do ensino superior, sendo que 2,4% admitiu que o faz muitas vezes ou sempre”


As explicações foram dadas à Lusa por Aurora Teixeira, investigadora do Observatório de Economia e Gestão e Fraude (OBEGEF), que liderou o estudo científico.

Apesar da magnitude da cópia em exame ser “extremamente elevada” no ensino superior em Portugal, a investigadora revela que o “comportamento quase massificado” e “generalizado de cópia” desceu nove pontos percentuais em relação ao estudo idêntico de 2010, em que 69,3% dos inquiridos admitia copiar nos exames.

O relatório síntese global do estudo científico a que a Lusa teve acesso, esta segunda-feira, revela também que os estudantes que admitiram já ter copiaram, apenas “2,5% foram apanhados” a cometer aquela fraude, o que é um "número preocupante", por trata-se de uma percentagem "relativamente reduzida!, nota a mesma investigadora. 

Elas copiam mais (ou pelo menos admitem)


As mulheres que frequentam o ensino superior reconhecem que copiam mais do que os homens nos exames.

"Efetivamente as raparigas apresentam uma propensão à cópia em exame superior à dos rapazes, com 63,3% das alunas a admitir ter copiado em exame contra 54,9% dos alunos", avançou Aurora Teixeira, também professora na Faculdade de Economia da Universidade do Porto.

"As meninas revelam-se mais prevaricadoras no que diz respeito à cópia em exame e nomeadamente na cópia pelo colega do lado”, referiu a especialista, explicando que apesar de as mulheres estarem sobrerepresentadas na amostra (68,8%), os dados da propensão à cópia e outros comportamentos desviantes estão em termos relativos.

O estudo/inquérito revela também que são as mulheres que mais pedem para assinar as aulas por si aos colegas.

Segundo explicou a investigadora, normalmente são os homens, por terem caráter de maior risco, que aparecem na literatura como sendo os mais prevaricadores, mas no novo estudo "Integridade Académica em Portugal" tal não aconteceu.
 

Outros dados



Em termos das classificações, são os estudantes com mais baixas classificações que têm maior propensão a cometer fraude académica.

Um outro dado a destacar é o facto de a reciclagem de trabalhos de uma disciplina para outra ter maior prevalência em estudantes com melhores médias. O facto explica-se porque os estudantes que têm boas notas nos trabalhos tendem a reciclá-los para outras disciplinas, considerou Aurora Teixeira.

Quarenta por cento (dos estudantes inquiridos admite ter pedido a colegas para assinar por si na aula (as presenças na aula) e a maioria deles são os “estudantes dirigentes associativos” (65,1%) e não os estudantes trabalhadores (21,9%)”, como se poderia pensar, acrescenta a investigadora Aurora Teixeira.

Dos inquiridos, 54,4% “entende que frequentemente a cópia é deliberada”, e 74,5% dos inquiridos conhece alguém que “habitualmente copia nos exames”.

Por outro lado, 40,3% afirmou “observar frequentemente ou sempre outros estudantes a copiar nas provas académicas”.

Para a investigadora “era preciso que existisse um esforço muito grande de sensibilização para estas matérias, não só em particular no ensino superior, mas de uma forma em geral na sociedade para que os comportamentos se alterassem radicalmente”.

Aurora Teixeira refere que quer o plágio, quer a cópia “é muito menos frequente no grau de doutoramento”.

“Apesar de existir é muito baixinho. É mais alto no mestrado”, revela a investigadora, explicando que há mais plágio e cópias nos mestrados porque os alunos “conhecem melhor os cantos à casa” e não têm todo o tempo para estudar, pois têm trabalho e vida familiar.

Do universo dos 4.028 estudantes inquiridos inscritos no ensino superior este ano letivo, 32,1% admitiu que se não houvesse vigilância durante um exame ou qualquer sanção por copiar estudaria menos. O relatório revela que “23% dos alunos estudariam menos 50% se não houvesse vigilância nos exames”.

A especialista defende que há de facto “um fenómeno generalizado” de cópia e plágio que convinha ser levado mais a sério e que devia ser “prevenido” e “atacado”.

Copiar nos exames é a fraude mais utilizada em todos os graus de ensino, mas existem muitas mais formas de prevaricar.

Copiar respostas pelo colega durante o exame, utilizar cábulas escritas, utilizar o telemóvel para obter ou trocar respostas, reciclar ensaios ou trabalhos de uma disciplina para outra, citar ou parafrasear com fonte bibliográficas inadequadas ou pedir a um colega para assinar a presença.

O estudo da Universidade do Porto "Integridade Académica em Portugal" teve como objetivo caracterizar a situação portuguesa dos estudantes inscritos no ensino superior no que se refere aos diversos comportamentos e condutas desviantes em termos académicos.