O bastonário da Ordem dos Médicos afastou o risco de epidemia de sarampo em Portugal dado o elevado nível de proteção existente, mas defende que a situação é preocupante e exige uma campanha nacional de sensibilização para a vacinação.

A situação é preocupante mas não alarmante. Não há motivo para alarme grande mas há motivo para preocupação e se fazer alguma coisa”, disse à agência Lusa Miguel Guimarães.

Uma jovem de 17 anos, que não estava vacinada, morreu esta quarta-feira com sarampo no Hospital Dona Estefânia, em Lisboa. A jovem estava internada desde o fim de semana, na sequência de uma pneumonia bilateral – complicação respiratória do sarampo.

Em declarações à agência Lusa, Miguel Guimarães disse que é necessário lançar uma campanha massiva junto da população portuguesa para a importância de ser cumprido o plano nacional de vacinação.

“O risco de epidemia alargado não existe dado o elevado nível de proteção em Portugal mas é fundamental fazer uma campanha massiva junto da população. Quando se faz uma campanha as coisas resolvem-se”, disse.

Segundo o bastonário da Ordem dos Médicos, a questão preocupante é que existem pais que não estão a vacinar as crianças criando um problema de saúde pública, uma vez que uma pessoa com sarampo pode contaminar dezenas ou centenas.

O sarampo é uma doença altamente contagiosa que se contagia através do ar ou do contacto. Por exemplo, numa sala fechada com dez pessoas se uma delas tiver sarampo e as restantes não estiverem imunizadas oito vão contrair a doença”, explicou.

O bastonário da Ordem dos Médicos disse ainda que o sarampo é uma doença altamente contagiosa e uma das doenças infeciosas que mais mata por atingir muita gente.

 

Enfermeiros: "As mentalidades não se mudam por decreto"

A bastonária da Ordem dos Enfermeiros defendeu hoje a importância de desmistificar a informação incorreta que as pessoas têm acerca do sarampo, que origina dúvidas legítimas, para tomarem as melhores decisões acerca da vacinação dos seus filhos.

Ana Rita Cavaco salientou a importância "de desmistificar a informação que [as pessoas] têm e não está correta porque, quanto maior o grau de informação que temos e o acesso a ela, mais dúvidas se colocam, [o que] é normal".

O conhecimento destas questões tem de chegar [às pessoas] para elas conseguirem tomar as melhores decisões e alterar e fazer mais leis não me parece [ser o mais adequado], as mentalidades não se mudam por decreto", disse, em resposta à agência Lusa sobre as regras existentes sobre vacinação.

"Há uma coisa que não podemos perder de vista, Portugal é um país fortemente regulado na área da saúde, tem, de facto, muitas leis, e não é por isso que todas elas são cumpridas, isto vai de uma mudança da consciencialização de cada um de nós e como podemos ajudar as pessoas a tomar as melhores decisões", salientou a bastonária.

Referiu que, "muitas vezes, a taxa de não cobertura vacinal, não só desta vacina, mas de muitas outras, ocorre neste grupo de pessoas que tem mais acesso à informação".

Para Ana Rita Cavaco, "é preciso esclarecer as dúvidas que as pessoas têm" e que "são legítimas porque há muita informação a circular que não é fidedigna".

"Se eu não fosse enfermeira, teria, seguramente, as mesmas dúvidas", acrescentou.

Há uma obrigatoriedade do plano nacional de vacinação, mas [por outro lado] não podemos interferir na liberdade de escolha de cada um que decide o que quer, qual a vacina que quer fazer, qual é o ato de saúde que deixa que lhe pratiquem, neste caso a administração de vacinas", defendeu a representante dos enfermeiros.

Segundo a especialista, esta "não é uma vacina que cause outros danos colaterais às crianças, até porque está amplamente testada no mercado".

O sarampo é uma doença geralmente benigna mas que pode desencadear complicações e até ser fatal.

Pelo menos 14 países europeus têm registado surtos de sarampo desde o início deste ano, com a Roménia a liderar o número de casos, com mais de quatro mil doentes em seis meses.

De acordo com o diretor-geral da Saúde, Francisco George, a Itália acaba de notificar 1.500 casos, 10% em enfermeiros e médicos, mas em 90% as pessoas a quem foi diagnosticada esta condição não estavam vacinadas.

Segundo o Centro Europeu de Controlo de Doenças (ECDC, na sigla inglesa), o número de países europeus com casos de sarampo foi crescendo no início deste ano e quase todos eles terão ligação ao surto que começou na Roménia em fevereiro de 2016.

Além de Portugal, registaram surtos de sarampo a Áustria, Bélgica, Bulgária, Espanha, Dinamarca, França, Alemanha, Hungria, Islândia, Itália, Suíça e Suécia.