Um quarto para as cinco. É a hora das "modas" no Apagão, a taberna do Pacheco. A "moda" não diz que os rouxinóis só cantam na Primavera, mas não faz mal. Isso é coisa de poeta ou de pastor... E o nosso nasceu, aqui, em Cuba, na rua do Carmo.

Este homem de samarra e cajado (só faltam os safões) é Manuel Costa - mais conhecido por Manel da Curêxa. Era o nome da mãe. Tem 84 anos. 59 de casado. É um resistente...

"Todos os dias, todos os dias, todos os dias. É de Inverno e de verão. Sábados e domingos e tudo... Tudo!"

Esta manhã, leva o rebanho para o pasto (umas 300 ovelhas, sem contar com os 12 cordeiros!): primeiro é a charca, depois... ali mesmo ao lado do maroiço - o monte de pedras, como eles dizem no Alentejo e nos Açores... depois... é devorar junça - o que houver.

"Desde os 6 anos que eu faço isto. Eu já tenho 84... Desde os 6 anos. Nem à escola fui...".  Manel da Curêxa vai passar o dia aqui. Não é tarde nem é cedo.

"Anda lá para aí!" - grita. "Não vás para aí. Volta para trás..."

RUI - Está sempre a falar com elas...

PASTOR - Sempre. Todo o dia. A minha guerra é com elas. A minha guerra é com elas. É lá, putedo! Não vão para aí! Voltem para trás. Elas voltam para trás. Viu o que elas fizeram?

RUI - São obedientes...

PASTOR - São.

RUI - Respeitadoras...

PASTOR - Respeitadoras! Se não forem respeitadoras, vai lá a força da Armada! (aponta para cães) Vai lá a força da Armada. Sabe o que é? É os cães. Ai, teimas? Então lá vai. Volta para trás. Dá a volta, a outra vez. Não vás para aí...

RUI - E a solidão?

PASTOR (canta!) - A solidão é... A solidão é até morrer. A solidão, ai, dão. Ai dão, cá para mim, quer sim, querer não, vem a morte, leva a gente, e não há-de de ter paixão, e paixão não há-de ter, solidão, ai dão, ai dão... Solidão até morrer!"

Foi sempre pastor. Desde miúdo. Não havia tempo nem dinheiro para a escola. Dos cinco irmãos é o único que está vivo. Quer trabalhar até aos 90...

As garças carrapateiras ou carraceiras (que comem a bicheira do gado)  vão aparecer daqui a bocado no meio dos sobreiros e das oliveiras, das silvas, da esteva, dos remelinhos. É tempo de abalarmos...