Por: Joana Ramos Simões | 13- 5- 2008 0: 1
Margarida licenciou-se em arquitectura numa universidade privada, em 2004. Para ser uma «arquitecta a sério» faltava-lhe
o estágio, que optou por fazer na Holanda, onde, durante um ano, recebeu 500 euros por mês.
Regressada a Portugal
dedicou-se a elaborar o relatório de estágio e a procurar um emprego, mas só conseguiu arranjar «trabalho». «Estive a fazer
maquetas para um amigo que tem um atelier», contou Margarida ao PortugalDiário. Por não ser um emprego a sério, e o
por ser um amigo, recebeu o pagamento em dinheiro.
Pouco tempo depois arranjou outro trabalho. A ideia inicial era
fazer duas maquetas para um arquitecto, mas o «empregador» acabou por propor-lhe que ficasse no atelier mais tempo, recorrendo
a um estágio profissional do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP). Num estágio profissional do IEFP, o estagiário
recebe o equivalente a dois salários mínimos (o Instituto paga um, o «empregador» outro), mas a ideia do arquitecto era outra.
«A
proposta dele era que eu recebesse o salário pago pelo IEFP, mais cinquenta euros, pagos por ele. Isto tudo a recibos verdes»,
contou Margarida. «Achei por bem recusar a proposta», acrescentou.
Um salário de 225 euros mensais
Nos
dois meses que passou no atelier do arquitecto a fazer as maquetas, «com um horário 'normal' de segunda a sexta-feira», recebeu
450 euros, 225 em cada mês.
Depois deste trabalho precário, Margarida saltou para outro. Prometeram-lhe seis euros
por hora, pagos a recibos verdes, mas acabaram por ser 3,5.
Entretanto surgiu a hipótese de trabalhar como arquitecta
numa imobiliária, a ganhar 800 euros limpos e com direito a contrato. Mas a promessa não passou disso mesmo. «Estive sete
meses a receber os 800 euros em dinheiro, sem que voltassem a falar-me no contrato», disse.
«O que se passou comigo
ali era recorrente. Trabalhavam lá pessoas há três anos sem contrato, sem recibos, sem nada. Se não tivesse o apoio dos meus
pais, se tivesse contas para pagar, filhos, se calhar tinha ficado, mas assim não», contou num tom de revolta.
«Há
alturas desesperantes»
Em Novembro do ano passado decidiu bater o pé. Nessa altura voltou à carga. Desde então
já perdeu a conta à quantidade de currículos que enviou. Foi chamada para meia dúzia de entrevistas, «apenas». «Há alturas
desesperantes. Nem sequer respondem ao e-mail ou à carta, nem que seja para dizer que não precisam de mais trabalhadores»,
disse.
Neste momento está à espera de resposta de um sítio, onde, caso seja escolhida, irá ser paga a recibos verdes,
com a promessa de passado uns meses passar a contrato.
«Já tinha noção que não seria fácil, mas nunca pensei que
a exploração fosse tão grande», disse. «É um bocado desesperante, mas é preciso ter calma. Há alturas em que fico desanimada,
não me apetece enviar mais currículos, não me apetece fazer nada. Não me apetece sequer sair de casa. Mas há outras em que
volto a insistir», continuou.
Margarida tem noção que é uma privilegiada. «Estou nesta situação porque tenho apoio
dos meus pais. Se não tivesse se calhar teria que ter aceitado algumas das propostas que já tive».
«Dizem-me que
vivo num mundo cor-de-rosa»
«Não tendo que me sujeitar, acho que devo bater o pé. Por muito que seja criticada.
Se tenho quem me ajude acho que devo sempre bater o pé».
«Dizem-me que vivo num mundo cor-de-rosa, eu acho que não.
Acho que tenho de lutar pelos meus direitos», disse Margarida, que neste momento vive o dia-a-dia, sem perspectivas de futuro.
«O nosso presente é assim».
Além de bater o pé às propostas «indecentes» que lhe são feitas, Margarida gostaria de
denunciar as situações com que já se deparou, mas a perspectiva de poder vir a arranjar um emprego fá-la pensar duas vezes.
Voltar
a sair de Portugal é uma ideia que passa pela cabeça de Margarida. Como muitos outros jovens portugueses «se a coisa não funcionar»,
ela volta a emigrar, embora gostasse de continuar no país.
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