Por cinco vezes avaliado «sempre acima de "bom"», mas sem colocação há ano e meio, o professor do 1.º ciclo Nuno Vital juntou-se hoje às várias centenas de docentes contratados que, no Porto, contestaram «uma prova que não prova coisa nenhuma».

«Custa-me perceber porque é que faço uma prova, porque o meu curso demorou quatro anos a tirar e tive já cinco avaliações, todas acima de "bom". Agora tenho que provar que realmente sou capaz através de um exame que me pretende avaliar as competências?», questionou o docente, em declarações à agência Lusa.

Convicto de que «a prova, em si, não tem nenhum proveito para o ensino português», Nuno Vital considera que o seu «objetivo é difícil de descortinar», mas acredita que «pretende afastar do ensino professores, talvez com fins estatísticos».

«O objetivo é eliminar professores», concorda Flora Gomes, de 38 anos, professora contratada há 16 anos e «sempre colocada na zona Norte, depois de três anos nos Açores», apesar de ser de Beja.

Agora que, «finalmente», ficou «colocada relativamente perto de casa», a docente lamenta «ver-se nesta situação», que diz não aceitar «de forma alguma».

«Eu tenho formação, sempre fui avaliada com desempenho de "bom" e "muito bom" e não vejo lógica em, por causa de uma prova de 120 minutos, poder ver-me impedida de concorrer», sustentou.

Com alguma dificuldade em fazer-se ouvir por entre as palavras de ordem gritadas pelas centenas de colegas docentes que hoje se concentraram frente à reitoria da Universidade do Porto, Flora Gomes admitiu ter-se inscrito na prova «para cumprir a lei, porque senão no próximo ano nem sequer poderia concorrer».

«Se a prova se realizar terei que a fazer, mas sou contra. Optei por ser professora há 20 anos e o que me foi dito nessa altura foi que tinha habilitação para concorrer», concluiu.

Também Nuno Vital acabou por decidir inscrever-se na prova, «a duas horas do final do prazo original» (entretanto alargado até ao dia 02), mas confessa que ainda não pagou os 20 euros requeridos.

«E acho que vou acabar por não pagar... Já estou desempregado há ano e meio e, no fundo, já desisti do ensino. Só que, quando entrego um curriculum com a minha licenciatura, sou quase logo descartado, por isso estou profissionalmente morto em todos os sentidos», lamentou.

Gritando palavras de ordem como «Crato, rua, a escola não é tua» ou «professores sim, descartáveis não», as mais de três centenas de docentes que hoje se manifestaram no Porto desfilaram desde a Praça Gomes Teixeira até à Avenida dos Aliados, ostentando cartazes onde se liam frases como «O Crato está chumbado» e «Esta prova não prova nada, não dá acesso a nada, é uma "cratinice"».

O Governo aprovou em setembro a regulamentação da prova de avaliação de conhecimentos dos professores, estando previsto que um docente que obtenha aprovação só tenha de realizar nova prova se, nos cinco anos subsequentes, lecionar menos de um ano.

A prova é destinada aos professores não integrados na carreira docente, ou seja, aos contratados, terá uma periodicidade anual, e tem como objetivo «aumentar sustentadamente os padrões de qualidade do ensino», assim como a «equidade entre os candidatos ao exercício de funções docentes», de acordo com o Ministério da Educação e Ciência (MEC).

Os sindicatos interpuseram nos tribunais providências cautelares para evitar que a prova se realize e os professores têm-se organizado em manifestações contra esta avaliação, a uma das últimas das quais decorreu na quarta-feira, em frente ao MEC, em Lisboa, com ameaça de invasão das instalações do ministério.