Professores e escolas consideram positivo o recurso a manuais escolares digitais, mas alertam que é necessário dotar as escolas com as ferramentas necessárias, uma vez que o equipamento tecnológico existente está obsoleto.

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, promulgou na terça-feira um diploma da autoria do Partido Ecologista Os Verdes (PEV), que visa fomentar a desmaterialização dos manuais escolares, abandonando progressivamente os materiais em papel.

“Esta medida é muito bem-vinda” e “será “muito bem acolhida pelas escolas”, a questão “é como se vai implementar este processo”, disse à agência Lusa a presidente da Associação Nacional de Professores, Paula Carqueja.

Paula Carqueja observou que “há muito equipamento tecnológico nas escolas, mas que está obsoleto”.

Esta posição é partilhada pelo presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas, Filinto Lima, que também considera a “medida positiva”, mas defende que “é preciso haver um investimento nas novas tecnologias”.

Já há manuais digitais desde 2013, mas o que não há nas escolas é computadores e ‘tablets’ suficientes para serem usados” pelos alunos, disse Filinto Lima à Lusa.

Além de serem poucos, “os computadores das escolas públicas estão obsoletos”, adiantou, defendendo que, antes de “a medida ser universalizada” é preciso dotar as escolas com estas ferramentas.

Para Filinto Lima, devia ser criado um “programa tecnológico de educação” semelhante ao que existiu há “alguns anos” e “dotou as escolas de bons computadores”.

“Não podemos começar a construir a casa pelo telhado, tem de ser pelos alicerces, que é dotar as escolas de material para que possam ter acesso posteriormente aos manuais digitais”, disse Filinto Lima, sublinhando que, “sem isso, não vale a pena dar esse passo, que é um passo de futuro”.

Paula Carqueja alertou também para o facto de o acesso à internet não ser uniforme em todo o país, afirmando que há regiões do interior que nem têm rede.

Quando falamos da desmaterialização e da utilização dos materiais digitais é preciso atender que há locais onde a internet é um bocadinho escassa e a ligação também”, advertiu.

Outras questões apontadas por Paula Carqueja prendem—se com “quem vai equipar as escolas”, que ferramentas serão utilizadas (‘tablet’, ‘ipad’ ou computador) e como.

Deve ser a escola a emprestar o meio eletrónico, que “a criança só utilizará na sala de aula”, defendeu a presidente da Associação Nacional de Professores, advertindo que este encargo não pode ser pedido aos pais.

Para Filinto Lima, a aposta na tecnologia tem de ser feita pelo Estado e deve ser considerada uma prioridade, para que a escola possa acompanhar a evolução da sociedade.

Se todos os setores “já estão a trabalhar com novas tecnologias, a escola não pode ficar para trás”, defendeu.

Para Paula Carqueja, a medida exige também uma formação contínua dos professores para que possam acompanhar a permanente atualização dos meios tecnológicos.

Outros pontos positivos apontados por Paula Carqueja e Filinto Lima são a diminuição dos gastos das famílias com os manuais escolares e as melhorias para a saúde das crianças, ao aliviar o peso que transportam nas mochilas.

“O avanço para o digital é importante, tendo em conta o peso das mochilas, porque iria diminuir drasticamente os quilos de livros que levam para a escola”, sublinhou Filinto Lima.

O diploma, que foi aprovado por maioria a 07 de julho, apenas com abstenção do CDS-PP, assenta em três pontos: poupança de recursos naturais, facilitar a gratuitidade dos manuais a todo o ensino básico e secundário e aliviar os estudantes dos pesos que transportam diariamente para a escola.

Manuais digitais vão trazer benefícios para o ambiente, para os alunos e pais

Pais e ambientalistas consideram que a utilização de manuais digitais nas escolas vai trazer benefícios para o ambiente, para a saúde das crianças e reduzir as despesas das famílias.

Para o presidente da associação ambientalista Quercus, João Branco, a “legislação é positiva” porque permitirá poupar “muitos recursos” naturais.

Haverá “uma pressão muito menor sobre o planeta”, porque deixar-se-á de gastar “milhares ou mesmo milhões de toneladas de papel por ano”, disse João Branco à agência Lusa.

Serão também reduzidos outros impactos ambientais relacionados com a produção dos manuais (as tintas) e o seu transporte.

“São muitos milhões de litros de combustível que se gastam todos os anos na distribuição dos manuais” e que serão poupados com esta medida, disse o ambientalista.

Para João Branco, a legislação também constitui “um passo a seguir às tentativas que têm sido feitas de reutilização de manuais escolares, que tiveram algum impacto mas nunca conseguiram atingir grandes objetivos”.

Esta medida também é apoiada pelo presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap), Jorge Ascenção, afirmando que “vai ao encontro” do que tem sido a preocupação dos pais.

“Sempre defendemos que as famílias devem ter a possibilidade de optar por manuais, por conteúdos, pela reutilização, pelo suporte digital”, disse Jorge Ascensão à Lusa.

“Mais do que se estar a falar da reutilização, é permitir às famílias que possam fazer essa opção”, disse, defendendo que “há manuais que faz sentido ser em suporte digital”.

Jorge Ascensão adiantou que há escolas que já adotaram o sistema de não obrigar à compra de manual em papel, o que considerou “uma boa medida porque deixa à família essa opção de acordo com o perfil da criança e com a forma como se sente melhor a trabalhar”.

“Para uma ou duas disciplinas posso comprar e para as outras não comprar. Poderá trazer vantagens para todos”, frisou o presidente da Confap.

Um dos objetivos da legislação é poupar os gastos das famílias com a compra de manuais escolares.

Para o próximo ano letivo, o cabaz médio dos manuais escolares custa 112,5 euros e o ano escolar mais caro é o 11.º ano, onde o valor ronda os 200 euros, segundo a Associação Portuguesa de Editores Livreiros (APEL).

Há muitas famílias que optam por reutilizar os livros, aderindo a plataformas de troca de manuais, poupando assim centenas de euros por ano.

Por outro lado, a legislação também trará benefícios para a saúde dos alunos ao aliviar o peso das mochilas, como apontou Jorge Ascensão, que tem vindo a defender algumas medidas para resolver o problema.

A Confap foi uma das entidades que assinou a petição “contra o peso excessivo das mochilas escolares em Portugal”, que reuniu mais de 40 mil assinaturas e que foi entregue em fevereiro no Parlamento.

Questionado pela Lusa sobre se as editoras estão preparadas para esta medida, Paulo Ferreira Gonçalves, da Porto Editora, que faz parte da APEL, disse que desde há anos que os manuais estão disponíveis em formato digital.

“Esta iniciativa legislativa está desfasada em relação à nossa atividade 10 anos”, disse Paulo Ferreira Gonçalves.

Por isso, sublinhou, “se de hoje para amanhã essa desmaterialização quiser ser concretizada, os pais, os alunos, os professores, o país podem estar perfeitamente descansados porque há conteúdos digitais de carater educativo perfeitamente estruturados, de qualidade, de rigor científico e pedagógicos de acordo com os programas”.

Mas, salientou, “não é sólido que o caminho mais indicado seja o uso exclusivo do digital”.

“Muitas experiências noutros países apontam para a necessidade imperiosa de não haver o uso exclusivo do digital mas sim em complemento com o papel”, rematou.