O filósofo português Eduardo Lourenço, orador no encontro Presente no Futuro, que decorre em Lisboa, assinalou esta sexta-feira  que «a liberdade é o que nos caracteriza» e, portanto, debatê-la «é como discutir a respiração». O filósofo admitiu ainda que «nunca» visitou a Internet, mas reconhece que pode vir felicidade do mundo virtual. 

«A liberdade é a forma normal de respirarmos. Quando se respira normalmente o problema da respiração não se põe», disse, no terceiro encontro Presente no Futuro, iniciativa da Fundação Francisco Manuel dos Santos, dedicado ao tema da liberdade.

«O Estado somos nós, enquanto atores da nossa própria história e construtores dos nossos futuros», destacou. «Nós somos responsáveis», frisou, admitindo que não temos, «todos nós», estado «à altura da liberdade, como mito supremo da humanidade».

Eduardo Lourenço afastou «riscos na regressão das liberdades, por enquanto», mesmo quando questionado sobre a ascensão da extrema-direita em França ou a progressão dos fundamentalistas islâmicos.

Os radicais da organização extremista Estado Islâmico, que servem de «referência» a pessoas desde Marrocos à indonésia, colocam um «desafio sério» à comunidade internacional, afirmou.

A «grande crise» é, atualmente, o confronto entre Ocidente e Islão. Este «acordar do mundo islâmico, que é vasto e variado» decorre de décadas de «imperialismo ocidental, que fez desse espaço um objeto de exploração».

À conversa com o radialista Carlos Vaz Marques, e recorrendo frequentemente ao humor, o filósofo percorreu os muitos momentos históricos marcantes a que assistiu ao longo da sua já longa vida, como a guerra civil de Espanha, que viveu junto à fronteira. «A guerra civil é o pior que pode acontecer a um país», concluiu na altura, confirmando-o depois mais tarde com a guerra portuguesa em África.

Em 1947, apercebeu-se de que havia duas Europas e uma só começava do outro lado dos Pirinéus. «Tudo mudava, como uma mágica, parecia um filme», recordou.

Eduardo Lourenço foi estudar para França «graças à América», com uma bolsa Fulbright, uma «etapa capital» na sua vida, que lhe permitiu estar fora de Portugal, «uma espécie de prisão», sob «uma ditadura suave, se isso se pode dizer».

A estada em França «mudou» a sua vida e foi «determinante» para observar como «um certo número de atividades consideradas normais encontravam obstáculos» no Portugal da altura.

O filósofo – que confessou «nunca» ter visitado a Internet – reconheceu «a felicidade nos jovens que encontram nesse espaço visibilidade», mas mostrou-se preocupado com a «transformação do espaço privado em espaço público».

Portugal «nunca esteve tão autocentrado» e «a capital do país é a televisão», observou, criticando os «excessos» deste «século do espetáculo» em que, «um português é, enfim, verdadeiramente universal»: Cristiano Ronaldo.

«À procura da Liberdade» é o tema geral do terceiro encontro Presente no Futuro, que convidou mais de 50 oradores nacionais e internacionais para o debate, hoje e sábado, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa.