A cocaína na Europa está a aumentar em quantidade e pureza, revelou o Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência, que aponta o aumento de produção na América Latina como uma das causas.

No seu relatório anual, apresentado hoje em Bruxelas, a agência europeia aponta a cocaína como "o estimulante ilícito mais consumido na Europa", que 2,3 milhões de pessoas entre os 15 e os 34 anos usaram no último ano.

O Observatório, sediado em Lisboa, assinala que houve pelo quarto ano consecutivo um aumento de mortes por 'overdose', especialmente com opiáceos, que ultrapassaram as 9.000, quase 3.000 só no Reino Unido, enquanto em Portugal houve apenas 26 registadas.

Para travar este número crescente de 'overdoses', nas quais estão envolvidos derivados do fentanilo, o Observatório recomenda que haja mais disseminação de naloxona, um antídoto, bem como de formação para dar resposta a 'overdoses'.

"A Europa está a sofrer as consequências do aumento da produção de cocaína na América Latina", considera o diretor do observatório, Alexis Goosdeel, que assinala o "aumento significativo" de pessoas que estão a procurar tratamento por causa de problemas com aquela droga.

A droga vendida nas ruas em 2016 estava no "nível mais elevado numa década", registando-se a apreensão de 70,9 toneladas nos países da União Europeia, em 98 mil ações.

Em Portugal, nesse ano, foram apanhadas 1,04 toneladas, em mais de 1100 apreensões.

O Observatório lembra ainda que entre 2015 e 2017 houve um aumento dos resíduos de cocaína encontrados nas águas residuais de 26 de 31 cidades que tinham dados para apresentar.

Em números globais, mais de 92 milhões de adultos já consumiram alguma droga e 1,3 milhões receberam tratamento por isso, indica o Observatório, que conta mais de um milhão de apreensões nos 28 países da União mais Noruega e Turquia.

No que toca à canábis, que continua a ser a droga ilícita mais consumida, o Observatório está preocupado com o possível impacto na distribuição e consumo do aparecimento de um mercado regulamentado em países como os Estados Unidos da América, cujas implicações ainda não são claras.

Um dos desafios de regulamentar o consumo de canábis vem do efeito que possa ter na condução com capacidades diminuídas.

No capítulo das "novas drogas", que escapam aos controlos internacionais pela velocidade com que alteram ingredientes, em 2017 apareceram 71 novas substâncias no radar do Sistema de Alerta Rápido da União Europeia, menos do que em anos como 2015, em que surgiram 98 psicoativos novos, ou 2014, quando apareceram 101.

Ao todo, o Observatório está atento a um catálogo de 670 substâncias, na sua maioria canabinóides sintéticos que são vendidos como "ervas para fumar" e no ano de 2017 houve mais de 32 mil apreensões.

Além de ser destino de tráfico de drogas produzidas em outros continentes, a Europa regista "sinais preocupantes" de que está a aumentar a produção, nomeadamente em laboratórios de MDMA (conhecido como 'ecstasy'), anfetaminas e drogas sintéticas que até estão a ser exportadas para a América, Austrália, Extremo Oriente e Turquia.

A Península Ibérica, que tem sido o principal ponto de entrada de droga na Europa, perde importância para outros locais mais a norte, como indicam dados de 2016, em que se verifica que 43 por cento da cocaína apreendida na Europa entrou por portos belgas.

No relatório anual destaca-se ainda a atenção que tem que ser dada às prisões como "locais críticos" para acompanhar consumidores de drogas de alto risco, encaminhando-os para tratamento e fornecendo terapias de substituição enquanto estão presos, rastreando ainda as doenças infecciosas associadas ao consumo de opiáceos injetáveis.