A Associação dos Bolseiros de Investigação Científica (ABIC) afirmou esta segunda-feira que está em curso um despedimento coletivo na área da ciência que vai parar as linhas de investigação e o investimento feito pelo país.

A secretária de Estado da Ciência, Leonor Parreira, afirmou em entrevista conjunta ao «Diário Económico» e à «Antena 1», divulgada esta segunda-feira, que há «excesso de investigadores para o dinheiro» dado à ciência.

«É evidente que o que está aqui em causa é uma justificação para o despedimento coletivo que está curso», disse à agência Lusa o presidente da ABIC, André Janeco.

O investigador lembrou que as instituições em que se produz ciência têm passado por «muitas dificuldades» e que se coloca hoje um problema de «como fixar os doutorados».

André Janeco defendeu que os resultados do concurso da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) para financiar bolsas de doutoramento e pós-doutoramento espelham «mais um corte», com reflexos no futuro.

«As instituições estão a ver os seus recursos humanos a ir embora. Isto de termos investigadores a mais e termos de agora reduzir o dinheiro não é bem assim, ainda estamos muito abaixo da União Europeia», disse.

A secretária de Estado reafirma na entrevista que o financiamento da ciência pretende «garantir o crescimento em qualidade».

Para André Janeco, a situação hoje vivida pela comunidade científica resulta do facto de se fazer investigação com pessoas em situação precária: «Isto é ciência precária. Algum dia este problema iria colocar-se».

«Isto não é um processo reversível. Não podemos dizer que cortamos porque agora temos um pouco menos de dinheiro. Se as pessoas param de trabalhar ou emigram, as linhas de investigação param e o capital investido pelo país nos últimos anos perde-se», sustentou.

Os bolseiros estão, por isso, a mobilizar-se para na quarta-feira se manifestarem em Lisboa, junto à Assembleia da República, durante a discussão de uma petição da ABIC pelos deputados.

Noutros pontos do país, são também esperadas iniciativas de apoio a este protesto, pelo menos no Porto, indicou o responsável pela ABIC.

«A ideia é ter também investigadores que foram rejeitados, nas galerias, a assistir ao debate», revelou.

Está também agendada a discussão de um projeto de lei do PCP «Contra o Desmantelamento do Sistema Científico e Tecnológico Nacional e pela defesa dos postos de trabalho científico».

No texto, o PCP recorda que quando da discussão do Orçamento do Estado para este ano confrontou o ministro da Educação e Ciência, Nuno Crato, com os impactos decorrentes de «uma redução de 26 milhões de euros nas verbas da FCT, referentes ao montante disponível para bolsas».

De acordo com os dados apresentados pelo partido, a despesa nacional em Investigação e Desenvolvimento (I&D), dividida pelo número de investigadores, ativos é inferior a um terço da média da União Europeia e tem «regredido nos últimos anos», apesar de ter aumentado significativamente o número de trabalhadores científicos precários.